A Bíblia no Vácuo: Por que a Nuda Scriptura é um Risco para a Fé na CCB
- Wesley Ayres

- há 3 horas
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Em um recente artigo, eu defendi que o verdadeiro pão que sustenta a alma é a revelação divina registrada nas Escrituras e por isso o exame diligente da Bíblia não é algo opcional para o cristão. Fiz isso em oposição ao ensino contrário ao estudo bíblico ouvido há décadas nos púlpitos da Congregação Cristã no Brasil (CCB), que chamei de o ensino da “CCB da vida real”.
Este artigo busca enfrentar agora a “CCB dos documentos”. A ideia de que o exame das Escrituras dispensa a história, a exegese e o auxílio de quem nos antecedeu na fé é um dos pilares do isolacionismo da CCB. Este artigo dedica-se a desconstruir o mito da leitura “pura e sem fermento”, argumentando que o verdadeiro exame das Escrituras exige honestidade intelectual e o uso das ferramentas que Deus, através da história, concedeu à Sua Igreja.
Um Passo para Frente, um Passo para Trás
Como venho reiterando nos meus artigos, é evidente que existe um esforço da liderança da CCB em aproximar a instituição do cristianismo ortodoxo, mesmo que apenas de forma documental. Um dos exemplos disso é a circular publicada no dia 7 de maio de 2025 com o título “O dever de examinar a Escritura Sagrada”, que pode ser encontrada no site da CCB.
Nesta circular a liderança da instituição oferece diversos argumentos para sustentar que é dever do cristão examinar as Escrituras. Há muitos pontos positivos nesta carta, como a afirmação que "o estudo reverente e o exame criterioso da Palavra são instrumentos santos”, e também o esclarecimento muito oportuno que o estudo bíblico não esfria o crente, antes “o verdadeiro conhecimento aquece o coração”. Contudo, a circular contém uma ressalva que, na prática, neutraliza o seu próprio propósito de levar os fiéis da CCB a um maior conhecimento das Escrituras, quase no fim do texto lemos:
“Esclarecemos, contudo, o estudo a que nos referimos deve ser focado, exclusivamente, na Bíblia Sagrada, sem busca a autores, publicações, trabalhos ou pensadores externos às Escrituras.”
Por trás dessa frase está um conceito chamado de “Nuda Scriptura”, que rejeita qualquer autoridade secundária, alegando que o uso de credos, confissões ou mesmo o uso de qualquer outro livro ou recurso teológico fere a autoridade da Bíblia. Na prática, isso torna a interpretação individual a autoridade final, criando um "Papa particular" em cada crente.
1. A Igreja é a Coluna e o Fundamento da Verdade
“Escrevo-lhe estas coisas embora espere ir vê-lo em breve; mas, se eu demorar, saiba como as pessoas devem comportar-se na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade. “ – 1 Timóteo 3:14,15
A Bíblia não caiu do céu em um vácuo, nem foi entregue a indivíduos isolados para que cada um criasse sua própria religião particular. Ela foi confiada a um povo: a Igreja. E se a Igreja é o fundamento que sustenta a verdade, isso significa que a interpretação das Escrituras possui uma dimensão necessariamente comunitária e histórica.
Uma coluna não existe para si mesma, ela sustenta algo maior. Quando a circular da CCB proíbe a consulta a “autores, publicações ou pensadores”, ela ignora que o Espírito Santo não iluminou apenas o leitor individual de hoje, mas tem guiado e assistido a Sua Igreja ao longo de dois milênios.
Rejeitar o auxílio da história da Igreja em vez de proteger a “pureza” da leitura, compromete a integridade da verdade que se deseja proteger, uma vez que a coluna e o fundamento da nossa leitura é guiada pelas inclinações do nosso próprio coração caído e sustentada pelas frágeis ideias e sentimentos desta era atual. O verdadeiro exame das Escrituras reconhece que não somos os primeiros a ler a Bíblia, somos herdeiros de uma linhagem de fé que nos ajuda a discernir o que é o pão da Palavra e o que é o fermento do erro.
2. Mandato de Transmissão Fiel
“E as coisas que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar a outros.” – 2 Timóteo 2:2
A ordem do apóstolo Paulo a Timóteo revela o método divino para a preservação da sã doutrina, a transmissão. A fé cristã não é uma descoberta individual recorrente, onde cada geração começa do zero, mas uma herança recebida e repassada. “Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes”, essa célebre frase de Issac Newton ilustra muito bem esse ponto. Da mesma maneira que a ciência não teria conseguido avançar se tivesse que “reinventar a roda” a cada geração, seria impossível termos um relacionamento profundo com Cristo sem estarmos firmados na verdade sustentada pelos piedosos homens e mulheres que vieram antes de nós. Ao dizer para confiar o ensino a “homens fiéis” que pudessem “ensinar a outros”, Paulo estabelece uma corrente de aprendizado que atravessa os séculos.
A circular da CCB, ao desencorajar a busca por “autores, publicações ou pensadores”, comete um erro de categoria grave. Ela trata todo e qualquer recurso externo como sendo obrigatoriamente danoso, quando, na verdade, muitos desses autores são os elos da corrente mencionada por Paulo. Se Deus concedeu à Igreja “pastores e mestres” (Efésios 4:11) para o aperfeiçoamento dos santos, rejeitar o que esses mestres escreveram e ensinaram sob o pretexto de focar “exclusivamente na Bíblia” é, ironicamente, desobedecer à própria Bíblia.
3. Iluminação e Humildade Cristã
“Assim, há muitos membros, mas um só corpo. O olho não pode dizer à mão: ‘Não preciso de você!’ Nem a cabeça pode dizer aos pés: ‘Não preciso de vocês!’” – 1 Coríntios 12:20,21
A Confissão de Fé Batista de 1689, no primeiro parágrafo do capítulo 26, diz:
“A igreja católica ou universal, que (com respeito à obra interior do Espírito e à verdade da graça) pode ser chamada invisível, consiste de todo o número dos eleitos, que foram, são ou serão reunidos em um só corpo, sob Cristo, o cabeça dela; ela é a esposa, o corpo, a plenitude dAquele que cumpre tudo em todos.”
Se entendemos que a igreja é formada por todos os cristãos do presente, mas também do passado, seria extremamente arrogante pensarmos que a iluminação divina está exclusivamente sobre os crentes do presente. Enquanto é verdade que a Bíblia ensina que o Espírito ilumina a mente do crente para compreender as realidades espirituais, o erro da "CCB dos documentos" é pressupor que essa iluminação ocorre de forma puramente individualista, como se o Espírito Santo tivesse acabado de chegar ao mundo.
Acreditar que o Espírito Santo não falou com ninguém nos últimos dois milênios, ou que o que Ele revelou a homens como Agostinho, Lutero, Calvino ou Spurgeon não tem valor para nós hoje é o que o escritor C.S. Lewis chamava de "esnobismo cronológico". Significa dizer que o conhecimento da nossa época, ou da nossa própria cabeça, é superior a tudo o que veio antes.
Eu não poderia resumir esse ponto melhor do que Charles Spurgeon, um grande membro do corpo de Cristo do passado:
“Parece estranho que homens que falam tanto sobre o que o Espírito Santo revela a eles, pensem tão pouco sobre o que Ele revelou a outros”
4. Proteção contra erros e heresias
“E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo. O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro.” – Efésios 4:11-14
Felizmente, hoje em dia ter uma Bíblia se tornou algo muito fácil e barato. É muito comum no Brasil que cada cristão tenha várias bíblias em sua posse. Temos muitas traduções em praticamente todos idiomas existentes atualmente, incluindo dezenas de traduções diferentes em língua portuguesa.
Menciono a tradução porque esse é apenas o recurso externo mais evidente que foi usado para que fosse possível termos nossas Bíblias, mas mesmo os tradutores devem confiar no trabalho de outras pessoas para conseguir chegar na melhor e mais fiel tradução. O trabalho de historiadores, arqueólogos, linguistas, teólogos e outros profissionais são necessários para que tenhamos em mãos uma boa tradução das Escrituras. Sem essas pessoas cada crente teria que ter um domínio amplo em diversas áreas do conhecimento para conseguir ler a palavra de Deus sem cair em erros e heresias. Porém, o problema não para aí.
A maioria das heresias que surgem hoje não são novas, são apenas "reciclagens" de erros que a Igreja já enfrentou e refutou nos seus primeiros séculos. Quando um cristão rejeita o auxílio de credos, confissões e do pensamento de homens piedosos que o antecederam, ele é obrigado a "reinventar a roda" teológica sozinho. Sem o balizamento da história, o leitor fica vulnerável a qualquer "vento de doutrina" que pareça espiritualmente atraente ou "revelado", mas que, na verdade, é apenas um erro antigo com uma roupagem nova.
O auxílio teológico funciona como um mapa em um território desconhecido. Ele nos mostra onde estão os abismos e onde outros já caíram. Ignorar esse mapa sob o pretexto de confiar apenas na própria percepção não é sinal de fé, mas de imprudência temerária. A "CCB dos documentos", ao isolar o fiel do patrimônio intelectual da cristandade, acaba por deixá-lo desarmado. O verdadeiro exame das Escrituras exige a humildade de reconhecer que a proteção contra o erro não reside no isolamento, mas na sã doutrina preservada e testada pelo tempo.
Conclusão
“Quem não estuda a Bíblia confunde heresia com a voz de Deus.” – João Calvino
Ao analisarmos a "CCB dos documentos", percebemos uma contradição latente. Por um lado, a liderança reconhece o dever de examinar as Escrituras, por outro, impõe um isolamento metodológico que asfixia a própria compreensão do texto. A tentativa de ler a Bíblia sem o auxílio da história, da exegese e da teologia não é um sinal de preservação da fé, mas uma receita para o subjetivismo e o misticismo.
Como vimos, a Bíblia não nos autoriza a sermos "ilhas" de interpretação. Deus estabeleceu a Sua Igreja como coluna da verdade, ordenou a transmissão fiel do ensino através de mestres e espalhou dons de sabedoria por todo o Corpo de Cristo ao longo dos séculos. Ignorar esse patrimônio sob a justificativa de evitar "fermentos externos" é, em última análise, rejeitar os meios que o próprio Espírito Santo providenciou para nos guiar.
O verdadeiro "exame criterioso" que a circular de 2025 menciona só é possível quando abandonamos o mito da Nuda Scriptura e abraçamos a humildade de aprender com quem nos antecedeu. O conhecimento teológico não é um inimigo que esfria o coração, é o combustível que, aliado à oração, fornece uma base sólida para que a nossa fé não seja baseada em emoções efêmeras, sentimentos corrompidos ou em tradições humanas de poucas décadas, mas na Rocha eterna da Palavra de Deus interpretada com fidelidade.
Que a irmandade da CCB não se contente apenas com o pão, mas que busque também aprender a reparti-lo com as ferramentas corretas. Que o "dever de examinar" deixe de ser apenas um decreto em papel para se tornar uma busca honesta, intelectualmente responsável e historicamente fundamentada. Afinal, as Escrituras são ricas demais para serem lidas apenas através das lentes limitadas de nossa própria ignorância.




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