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Batendo no espantalho da teologia

  • Foto do escritor: Wesley Ayres
    Wesley Ayres
  • há 1 dia
  • 7 min de leitura

Com certeza você já viu um espantalho, mesmo que apenas em um filme. Ele é um boneco de palha, tosco e sem vida, colocado em plantações para afugentar pássaros através da ilusão. No campo da lógica, o "espantalho" descreve uma falácia comum. Quando, em uma discussão, alguém distorce, simplifica ou exagera a posição do outro para torná-la mais fraca, está cometendo o que é chamado de falácia do espantalho.


Essa tática oferece um caminho de menor resistência. Permite evitar o debate real, que exigiria esforço, estudo e humildade, para triunfar sobre uma caricatura facilmente refutável. É exatamente isso que acontece quando se ensina que o estudo teológico é um erro, bate-se com força em um espantalho para não ter que encarar a profundidade e a necessidade do conhecimento bíblico organizado.


Na minha experiência, é muito comum que, ao conversar com frequentadores da Congregação Cristã no Brasil (CCB), eles fujam de discussões teológicas com alegações do tipo: “isso é coisa que não se deve discutir” ou “isso não tem importância”. Outros recorrem a desculpas como “vamos entregar nas mãos de Deus”, “Deus sabe de todas as coisas” ou “o importante é que você está feliz onde está”. Porém, o mais comum é certamente o uso de “testemunhos” que têm por objetivo demonstrar que a teologia seria desnecessária diante de obras, sinais e maravilhas.


Neste artigo, pretendo demonstrar que essa atitude medrosa tem origem na liderança da denominação e é fruto de uma profunda confusão cultivada por décadas na mente dos fiéis. Mesmo a recente circular da CCB sobre o “dever de examinar as Escrituras” não corrige esse problema, já que ao mesmo tempo que incita os fiéis a trabalharem no estudo diligente das Escrituras ensina que isso deve ser feito sem qualquer ferramenta externa, já que exorta os fiéis que o exame deve ser feito “exclusivamente, na Bíblia Sagrada, sem busca a autores, publicações, trabalhos ou pensadores externos às Escrituras”.


1. Somos todos teólogos


“Vós, portanto, amados, sabendo isto de antemão, guardai-vos de que, pelo engano dos homens abomináveis, sejais juntamente arrebatados, e descaiais da vossa firmeza; Antes crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A ele seja a glória, assim agora, como no dia da eternidade. Amém.” – 2 Pedro 3:17,18

No livro “O Conhecimento das Escrituras” R.C. Sproul diz:


“Incontáveis vezes ouvi cristãos objetando: 'Por que tenho de estudar doutrina e teologia, quando Jesus é tudo o que preciso conhecer?'. Minha resposta imediata é: 'Quem é Jesus?'. Assim que começamos a responder tal pergunta, estamos envolvidos com doutrina e teologia. Nenhum cristão pode evitar a teologia. Todo cristão é um teólogo. Talvez não um teólogo no sentido técnico e profissional da palavra, mas um teólogo. A questão para nós cristãos não é se seremos ou não teólogos, mas se seremos bons ou maus teólogos.”

É impossível falar sobre Deus, a Igreja, salvação, céu ou inferno sem fazer teologia. Teologia é, em sua essência, o esforço para entender e falar de Deus. Por isso, sempre que meditamos sobre seus atributos, sua criação ou seu relacionamento com o ser humano, estamos agindo como teólogos. Até mesmo quando relatamos as obras de Deus por meio do que a CCB chama de “testemunhos”, estamos, na prática, produzindo teologia. A diferença crucial, portanto, é saber se estamos baseando nossas conclusões na verdade revelada ou em impressões pessoais, sentimentos do nosso coração enganoso ou, pior ainda, trazendo premissas e doutrinas de outras religiões.


2. O paradoxo


“E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores,¹² Querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo;¹³ Até que todos cheguemos à unidade da fé, e ao conhecimento do Filho de Deus, a homem perfeito, à medida da estatura completa de Cristo,” – Efésios 4:11-13

Imagine que o reitor de uma universidade diga aos alunos de medicina que eles terão à disposição os melhores laboratórios e equipamentos do mundo, porém, naquela instituição, os alunos devem estudar sem o auxílio de livros. Ele justifica essa posição alegando que, historicamente, muitos livros médicos foram escritos com imprecisões e que, portanto, não vale a pena usá-los, pois os estudantes poderiam se confundir.


Essa situação parece absurda, mas é exatamente o que a CCB faz ao exortar seus fiéis a examinar as Escrituras, proibindo o uso de recursos externos. Essa posição pode parecer piedosa e protetora, mas, na verdade, é um paradoxo que retira as ferramentas que tornariam a tarefa produtiva. Ao abandonar as pessoas somente com sua Bíblia, sem nenhum outro auxílio, a liderança da CCB está na prática colocando uma barreira que para a grande maioria das pessoas é intransponível.


A igreja não começou ontem. Ela é formada por todos os crentes que já viveram e pelos que ainda crerão. Deus concedeu pastores e mestres ao longo da história com a ordem para que transmitissem o que aprenderam. Isso implica que devemos, com humildade, aprender com esses mestres em vez de desprezar o conhecimento que o Espírito Santo já consolidou através dos séculos.


3. A única ferramenta permitida


“Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim.” – Atos 17:11

Falsos mestres gostam de tirar as ferramentas de seus seguidores e garantir que a única ferramenta permitida seja a ferramenta do medo e da obediência ignorante, que apenas ele pode usar.


Quando a “revelação” individual e subjetiva é inquestionável, todo “sentimento” dos anciãos é lei, mesmo que contrário ao ensino bíblico. Dessa forma, a liderança pode agir impondo sua vontade, ferindo almas, e destruindo vidas, livres de qualquer contestação. No entanto, se o critério for a Escritura estudada e analisada, qualquer fiel com uma Bíblia e um bom comentário pode perceber se o que foi dito no púlpito faz sentido ou não. O medo da teologia é, na verdade, o medo da prestação de contas.


Esse mecanismo perverso que transforma a dúvida honesta em pecado de rebeldia por fim gera dois grandes grupos na instituição. O primeiro e maior grupo é aquele formado pelos que aceitam e obedecem Ao demonizar a teologia, a liderança cria uma barreira onde o fiel sente culpa por querer entender o que lê. O resultado é um rebanho que caminha por sensações, dependente de uma casta de intérpretes, os anciãos mais antigos, que não aceitam ser confrontados pela clareza do texto bíblico. Nesse sistema, a ignorância não é um acidente, mas um projeto de manutenção de poder, mesmo que não intencional.


O segundo grupo gerado pelo peso desse controle sufocante é como uma resistência silenciosa clandestina, a qual busca o conhecimento teológico longe do olhar julgador da liderança. Esses fiéis estudam livros e leem comentários bíblicos como se consumissem um contrabando espiritual. Se orgulham das suas Bíblias de Estudo, autores que conhecem, pastores que admiram.


O aspecto mais trágico é que esse isolamento produz o oposto da proteção prometida. De um lado, a CCB mantém um grupo alheio às verdades bíblicas e vulnerável a qualquer vento de doutrina. De outro, condena os que buscam navegar sozinhos por um mar imenso de informações boas e ruins, sem qualquer supervisão, acompanhamento ou fundamento estabelecido.


4. O fermento da ignorância


“O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; e, visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.” – Oséias 4:6

Jesus nos comissionou a ir por todo o mundo e fazer discípulos, ensinando-os a guardar todos os seus mandamentos (Mt 28:19-20). Paulo também foi enfático ao ordenar que o ensino fosse transmitido de forma fiel e sistemática de uma geração para outra (2 Tm 2:2). Ao negligenciar esse dever bíblico explícito, a CCB acaba por espalhar o verdadeiro fermento da ignorância. É justamente na escuridão da falta de instrução e na ausência de um discipulado sério que as distorções, os erros e as heresias encontram o ambiente perfeito para crescer e se multiplicar.


A teologia é a luz e o ar fresco que impedem o bolor da ignorância de corromper a igreja. Sem ela, a revelação individual e subjetiva nada mais é do que um “pão bolorento” servido a um povo que vive sob a ilusão de receber mensagens diretamente da boca de Deus. Uma denominação que deliberadamente negligencia a responsabilidade de ensinar as Escrituras sob o pretexto de confiar no Espírito Santo, na verdade, ofende ao Senhor ao ignorar Seus mandamentos. Deus estabeleceu a Igreja como o meio oficial pelo qual Sua Palavra deve ser pregada e ensinada com clareza a todas as nações.


O aspecto mais perturbador é que esse mecanismo alimenta um ciclo vicioso. Frequentadores ouvem um ensino oral distorcido, alguns dos frequentadores são selecionados para o ministério, esses selecionados levam as distorções aprendidas e adicionam as suas revelações subjetivas alimentando distorções ainda maiores. O resultado é uma erosão doutrinária contínua, onde o fermento da ignorância se multiplica a cada nova geração de obreiros.


Conclusão


“E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento.” – Mateus 22:37

O espantalho da teologia foi criado para manter as ovelhas em um estado de dependência infantil, temerosas de algo que pensam ser um monstro, mas que na realidade, é o seu melhor aliado. Como vimos, a teologia não é um fermento que corrompe, mas a luz que expõe o mofo das tradições humanas e dos sentimentos enganosos que muitas vezes ocupam o lugar da Palavra de Deus.


Se você faz parte daquela resistência silenciosa que estuda escondido, ou se é alguém que acaba de perceber o paradoxo de ser ordenado a examinar sem as ferramentas e recursos essenciais para isso, saiba que o seu desejo de conhecer a Deus profundamente não é um pecado. Pelo contrário, é o cumprimento do maior de todos os mandamentos, amar a Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.


Abandonar o medo da teologia é o primeiro passo para uma fé madura e inabalável. O estudo bíblico sério e organizado não apagará o Espírito em sua vida, na verdade ele fornecerá o combustível puro para que o fogo da sua devoção queime com mais clareza, segurança e verdade. Não aceite mais o “pão bolorento” das revelações vazias. Volte-se para as Escrituras com todas as ferramentas que Deus, em sua graça, concedeu à Sua Igreja através dos séculos.

 
 
 

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