Falta ou carrinho na bola? A CCB na arena do debate teológico
- Wesley Ayres

- 11 de jul.
- 7 min de leitura
“Como o ferro com o ferro se aguça, assim o homem afia o rosto do seu amigo.” – Provérbios 27:17
Imagine um time de futebol chamado "Clube dos Craques da Bola" (CCB), que tem uma grande torcida. A torcida sempre achou que seu time era o melhor. Eles acreditavam que tinham os melhores jogadores, o hino mais comovente e, apesar de ter poucos anos desde a sua fundação, até o mais simples dos torcedores achava que eles tinham a mais linda história. Quando alguns torcedores começaram a dizer que o time não era assim tão bom, que outros times jogavam de forma diferente e mais bonita, a diretoria do clube entendeu que precisava inscrever o time em uma competição oficial. Assim, todos poderiam ver como o time era bom.
Acontece que o clube nunca tinha participado de uma competição. Desde sua fundação, eles sempre jogavam sozinhos dentro do seu centro de treinamento. Apenas a sua torcida podia assistir aos jogos-treino, que não eram transmitidos para além dos muros do CT.
Finalmente chegou o dia do primeiro jogo do torneio, mas não sem muita confusão. Quando o time adversário entrou no gramado para o aquecimento, houve grande admiração. O time do CCB não sabia o que era aquilo, achava estranhos aqueles movimentos e não via necessidade para aquele preparo. O juiz teve muito trabalho, pois havia jogadores sem uniforme, os reservas não sabiam onde deveriam ficar e ninguém sabia que seria necessário ter um capitão para o sorteio inicial.
Quando finalmente o juiz apitou o início do jogo, os craques do CCB ficaram ainda mais surpresos. Os jogadores adversários eram mais rápidos e mais fortes. Eles pareciam estar em todos os lugares, já que tinham uma resposta para tudo o que o time tentava fazer. O trabalho do juiz não terminou, pois os jogadores do CCB estavam sempre reclamando que sofriam faltas e diziam que não estavam acostumados com aquelas regras. Aliás, eles diziam que o juiz nem sequer conhecia as "regras reais" do futebol, que eram aquelas usadas no CT.
Decidiram não voltar para o segundo tempo. Para eles, era óbvio que estavam sendo injustiçados. Eles preferiram lembrar do tempo dos jogos-treino, onde sempre jogavam bem e eram amplamente elogiados.
Essa história não é sobre futebol. Ela é o retrato fiel do que está acontecendo na Congregação Cristã no Brasil, a CCB da vida real. O muro protetor que isolava a denominação caiu e a obrigou a entrar na arena para um combate para o qual ela não demonstra estar preparada.
Os muros caíram
“e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” – João 8:32
"Não sabe brincar, não desce pro play". Por mais de um século esse foi o lema implícito da CCB. As regras ditadas pelos anciãos levantaram muros de exclusivismo que acabaram por formar um “centro de treinamento” impenetrável. Nesse ambiente perfeitamente fechado, o ministério da CCB pregava sem contestação. Afinal, quando você joga sozinho, você é sempre o campeão invicto.
Hoje, as cercas e os muros levantados por décadas estão sendo minados pelos canais de apologética, pelas milhares de pessoas deixando sua membresia e até mesmo pela exposição dos cultos online. Agora as doutrinas da instituição estão sendo testadas e há um confronto real. A liderança da CCB agora enfrenta interlocutores que ela não escolheu e para os quais não estava preparada. Isso é evidenciado pelos cultos online que agora servem como um registro em alta definição e para o mundo inteiro dos ensinos da “cúria” da CCB a partir do Brás em São Paulo.
Longe da isolação do seu centro de treinamento, a CCB está agora como um time estreante na primeira divisão, em uma arena pública onde não são mais os anciãos que ditam as regras. Os chamados "marcos antigos" não são mais inquestionáveis. De repente, a liderança e os fiéis da denominação se viram num campo onde reina a lógica, a história da igreja, a exegese e o conhecimento bíblico. Não é de se admirar que neste novo campeonato os “jogadores” da CCB estejam se sentindo agredidos e gritando "FALTA!".
Carrinho na bola não é falta
“antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós,” – 1 Pedro 3:15
Nem todo jogo de futebol é bonito. Muitas vezes ele é truncado e existem times que preferem jogar com mais intensidade física, chegando duro na bola. Enquanto é verdade que às vezes um jogador pode dar um bote precipitado e fazer falta ou levar um drible, a disputa pela bola faz parte do jogo. Mesmo um carrinho forte, quando é direcionado na bola, é perfeitamente legal.
Dentro da apologética, que é a defesa da fé, ser questionado ou criticado não é um ataque pessoal. Faz parte do jogo. Isso, porém, é algo que a maioria dos membros da CCB parece não ter entendido ainda. Esse despreparo é facilmente percebido quando vemos a liderança da instituição ensinando nos cultos online ou emitindo circulares exortando que a irmandade não consuma o conteúdo dos chamados "críticos".
A situação muda um pouco quando o fiel da CCB tem que lidar com a crítica pessoalmente. Enquanto é fácil evitar conteúdo online, é muito mais difícil lidar com situações presenciais. Estar frente a frente com críticos não quer dizer que os fieis da CCB abordam as objeções diretamente. Com raras exceções, eles usam duas estratégias para fugir do confronto. A primeira é usar frases prontas para desviar o assunto ou encerrar a conversa. Dizem coisas como: "Deus sabe de todas as coisas", "esses são os mistérios de Deus", "cuidado com a letra" ou "o importante é que você está servindo ao Senhor".
A segunda estratégia usada pelos fiéis para fugir do debate é contar testemunhos. Dessa forma eles pensam que estão demonstrando a veracidade das doutrinas ensinadas na denominação, e há beleza genuína em uma fé confiante no poder de Deus. O problema é que experiências pessoais, por mais tocantes que sejam, não resolvem questões doutrinais. E isso não é uma crítica moderna, Calvino ao comentar Deuteronômio 13, disse:
“Deus nos instrui a não permitir que nossos ouvidos sejam desviados por milagres, mas que a pureza da doutrina seja para nós a norma pela qual todo teste deve ser feito.”
Há também a célebre frase atribuída a Martinho Lutero:
"Qualquer ensinamento que não se enquadre nas Escrituras deve ser rejeitado, mesmo que faça chover milagres todos os dias."
Assim como um time que abre mão de disputar a bola em todas as jogadas certamente terá resultados adversos frequentes, entender que qualquer crítica é um ataque agressivo e injustificado ou tentar fugir em frases prontas ou testemunhos também não serve para avançar uma maior compreensão do ensino bíblico e esclarecimento dos pontos de doutrina da instituição. Enquanto é verdade que existem críticas mal feitas, infundadas ou injustas, existem aquelas que nos fazem pensar profundamente e crescer. Nem todo carrinho é falta.
O treino prepara para o jogo
“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade.” – 2 Timóteo 2:15
“O jogo hoje não foi bom, mas o campeonato ainda não acabou. Agora vamos ouvir o que o professor vai falar e voltar mais forte para o próximo jogo”. Há um motivo por que você já ouviu exatamente essa frase de incontáveis jogadores na entrevista pós-jogo ainda em campo. Todo jogador sabe que a única maneira de aprender, evoluir e crescer é no treino. Eles sabem que precisam conhecer a si mesmos, conhecer o jogo, conhecer seus adversários e treinar muito.
No contexto da fé, o treinamento é a preparação teológica, tão injustamente temida pela liderança da instituição. O problema da CCB é que ela espera ganhar o campeonato sem levantar peso na academia, sem passar tempo analisando os jogos dos adversários e sem ir para o quadro tático. Existe na CCB uma crença perigosa de que o preparo intelectual anula a ação do Espírito Santo, mas a verdade é exatamente o oposto. O professor, nesse caso, não é apenas um homem no púlpito. Ele é o acúmulo de sabedoria bíblica, histórica e linguística que a igreja cristã produziu em dois milênios.
Para voltar mais forte para o próximo jogo e parar de fugir para o vestiário toda vez que ouve uma pergunta difícil, o fiel da CCB precisa treinar duro. Isso exige humildade para entender que não sabe tudo. É necessário entender que o cristianismo não começou em 1910 e que a história da igreja é cheia de curvas. É necessário amar Cristo o suficiente para desejar ardentemente conhecê-lo mais. É necessário conhecer as Escrituras em todo o seu contexto. É necessário ler livros. É necessário aprender com os mestres.
Quando um cristão se nega a estar preparado para dar a razão da sua fé, ele não está demonstrando santidade. Ele demonstra apenas uma fé frágil que, em vez de oferecer segurança, estimula o medo e a fuga.
Conclusão
“até que todos cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo, para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo vento de doutrina, pelo engano dos homens que, com astúcia, enganam fraudulosamente.” – Efésios 4:13,14
O debate teológico é antigo e não é vergonha alguma entrar agora nesse jogo. Assim como a Copa de 2026 terá pela primeira vez seleções como Curaçao e Cabo Verde jogando ao lado de Brasil, Alemanha e Argentina, chegar tarde à arena não é desonra. É uma oportunidade de ouro. O fim do isolacionismo da CCB é um caminho sem volta, e antes que alguém tente espiritualizar a questão, é preciso entender que isso não é uma “obra do inimigo”. É uma chance para que essa denominação centenária olhe para si mesma e compreenda como ela se encaixa na história milenar do cristianismo. No grande jogo da defesa do Evangelho, a crítica não é um ataque, é apenas o apito inicial. É o convite para que o time finalmente saia do aquecimento e comece a jogar a partida que realmente importa.




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