top of page

O Evangelho que Liberta e o Evangelho que Escraviza

  • Foto do escritor: Wesley Ayres
    Wesley Ayres
  • há 2 dias
  • 10 min de leitura

Atualizado: há 5 horas

O dia mais feliz da vida da pequena Karen foi quando ela finalmente foi adotada.


Ela tinha sido deixada no orfanato há quatro anos, o que representava a maior parte de seus seis anos de vida. As primeiras semanas foram como um sonho: ela se sentia feliz e querida, embora ainda desconectada de seu pai adotivo. A mãe dizia que o pai era um homem muito severo e que, embora tivesse adotado Karen, mantinha a adoção sob a condição de uma performance perfeita. A mãe explicava que ser chamada para a família era apenas o primeiro passo, e que a escolha final do pai só aconteceria no último dia, baseada estritamente no que Karen conseguisse produzir.


Karen não entendia muito bem, mas confiava plenamente em sua mãe adotiva, esforçando-se ao máximo para fazer tudo corretamente. Sua preocupação aumentou ao saber que a família já havia tido outro filho adotivo que não se comportava bem; por isso, o pai o levou de volta ao orfanato, pois não podia ter um filho que não tivesse bom comportamento.


O irmão de Karen vivia angustiado, sabendo que seu pai mantinha uma ficha detalhada de seus erros. Para ele, a paz só existia nos breves momentos após o perdão, quando acreditava que sua ficha havia sido limpa, mas essa tranquilidade era passageira. Ele temia que qualquer novo deslize fosse o registro definitivo que o levaria de volta ao abandono.


O que você acha dos pais adotivos dessa pequena história? Podemos dizer que são pais amorosos? Como você acha que os filhos adotados por esse casal se sentem, vivendo sob o risco iminente de deixar de ser filhos a qualquer momento? Essa é a exata imagem da experiência cristã descrita por muitos hoje, onde a eleição e a salvação são apresentadas como uma posição instável, sujeita a uma revisão constante baseada na performance humana.


Neste artigo, baseado na fala do ancião presidente da Congregação Cristã no Brasil (CCB), proferida no culto online do dia 5 de julho de 2026, quero distinguir entre o Evangelho que liberta e o evangelho que escraviza, avaliando se nossa posição diante de Deus é fruto do nosso frágil esforço ou da sua imutável promessa soberana e graciosa.


O Discurso do Ancião


Antes de analisar trechos específicos da fala do ancião presidente da CCB, apresentaremos o que ele disse, para evitar que alguém pense que a fala foi retirada de contexto. Assim, segue a transcrição completa, na forma original, do que o ancião Salvador Bueno falou no culto online do Brás, em São Paulo, em 5 de julho de 2026.


“O total de irmãos e irmãs batizados aqui nesta casa de oração desde janeiro, 2.353. Louvado seja Deus. O Senhor está chamando aqueles que deverão compor o grupo para a escolha do Senhor. O Senhor vai chamando, chamando e depois, então, dependendo do que cada um produzir e se comportar, será a escolha. Nós estamos aqui, todo mundo foi chamado. Agora é lutar para ser escolhido. E a escolha não é só agora, é lá no fim. Por isso que não dá para facilitar muito, não. Porque se a escolha fosse hoje, dava um jeito de correr, arrumar, mas você ser escolhido hoje. Mas, irmão, é lá no fim e o Senhor computa tudo. Só não fica registrado quando há, de nossa parte, o reconhecimento, o arrependimento e o pedido de perdão. O Senhor perdoa, limpou a ficha. Mas o que está lá ainda escrito, precisa ser trabalhado. É arrepender-se e buscar a misericórdia de Deus para ficar escolhido. Eu acho que essa é a expectativa de todos nós, não é, irmãos? Graças a Deus. Cumpre-se, irmãos, e aos que dantes conheceu, a estes predestinou, e aos que predestinou, a estes chamou. E então, nós estamos agora chamados, aos que chamou, a estes justificou. Nós estamos nessa fase da justificação. O Senhor vai, não é que justificou uma vez e depois não precisa mais. Todo santo dia precisamos ser justificados por Deus para depois, na última fase, sermos glorificados. Esse é o projeto de Deus na vida de cada um de nós. Por isso que o fato de ser chamado e batizado já é um avanço, já ficou reservado. Agora tem que haver a conservação da fidelidade ao Senhor, para naquele dia nós sermos, então, levados para a glória de Deus, já preparados.”

A Confusão


O ancião Salvador Bueno afirma:

“O Senhor está chamando aqueles que deverão compor o grupo para a escolha do Senhor. Já vai chamando, chamando e depois, então, dependendo do que cada um produzir e se comportar, será a escolha.”

Embora seu tom de exortação pareça sincero e dedicado à santidade, sua base teológica mostra uma confusão entre o Pacto das Obras e o Pacto da Graça. Ao condicionar a “escolha final” ao que o crente “produzir e se comportar”, o discurso reintroduz a lógica do Pacto das Obras.


A teologia da aliança, também chamada de teologia pactual, é uma das doutrinas centrais e mais importantes na teologia reformada. Um pacto, ou aliança, é um acordo entre duas partes que envolve responsabilidades, obrigações e promessas mútuas. A Bíblia nos mostra dois grandes pactos: o chamado Pacto das Obras, sistema sob o qual a humanidade falhou em Adão.


O Evangelho de Jesus Cristo, por outro lado, inaugura o Pacto da Graça, onde a promessa de vida e filiação é baseada na obra de Cristo, e não no mérito humano.

No pacto das obras o princípio era “faça e viverás”, no pacto da graça é “creia e viverás”. Debaixo da graça confiamos no que Cristo já fez, na salvação que Ele oferece.


Quando o ancião diz que “a escolha [de Deus] não é só agora, é lá no fim” e que “não dá para facilitar muito” para que se possa ser escolhido, ele coloca o cristão em um estado de incerteza perpétua. Essa estrutura retira o descanso do crente em Cristo e o transfere para o seu próprio desempenho.


Como descrevemos em nossa analogia inicial: se a filiação de Karen dependesse de sua performance diária para evitar o retorno ao orfanato, ela não vive como uma filha amada, mas como uma funcionária sob constante ameaça de demissão ou como uma serva que mede suas ações para evitar punição.


A Bíblia nos mostra que, no pacto da graça, as nossas obras são o fruto da eleição e resultado de um coração regenerado e jamais a causa ou o critério para sermos aceitos pelo Pai. Quando o ancião condiciona a eleição divina ao comportamento do homem, ele está invertendo a ordem do evangelho.


A confusão das alianças troca a liberdade dos filhos de Deus pela escravidão do medo, o abraço de um Pai amoroso pelo olhar distante de um pai severo, o descanso da Graça de Deus pela busca incessante por uma aprovação que sempre está um passo além.


O Deus que Elege


A doutrina da eleição é um tema importante nas Escrituras, de tal forma que é inevitável para qualquer tradição cristã abordar o seu significado.

O ancião da CCB ensina essa doutrina da seguinte maneira:

“O Senhor está chamando aqueles que deverão compor o grupo para a escolha do Senhor. O Senhor vai chamando, chamando e depois, então, dependendo do que cada um produzir e se comportar, será a escolha.”

Para quem nunca esteve nos bancos da CCB essa frase precisa de uma explicação. O ensino da denominação é que o chamado de Deus é o batismo.


Quando o ancião diz “o Senhor está chamando”, ele refere-se às pessoas que estão sendo batizadas.

Entender isso é importante e deixa clara uma distorção teológica ainda maior do que aparenta à primeira vista, pois mostra um deus fraco, que não age ativamente para salvar, mas apenas tem o direito de escolher dentro do conjunto de pessoas batizadas na instituição sob a condição de que elas “produzam e se comportem bem”.


As Escrituras nos apresenta um quadro radicalmente diferente. Elas nos mostram um Deus forte e soberano.


O Deus que se revela em Sua Palavra não é um observador ansioso, esperando para ver o que faremos para, então, decidir quem incluirá no grupo dos eleitos. Ele não está limitado a escolher exclusivamente entre um pequeno grupo de pessoas batizadas em uma denominação. Ele é o Deus que escolheu o Seu povo “antes da fundação do mundo” (Ef 1:4).


Ao dizer que os que foram chamados (batizados) devem “lutar para serem escolhidos” e que a escolha é só “no fim”, o ancião ensina que existem coisas que devemos fazer para sermos salvos. Isso fica mais evidente quando ele diz que se a escolha de Deus fosse hoje seria possível “dar um jeito de correr e arrumar” e coloca o fardo do destino eterno sobre os ombros frágeis do homem.


Contudo, o Deus que elege é o mesmo Deus que garante o Seu propósito. Ele não elegeu os justos. Ele elegeu pecadores para torná-los justos através de Cristo. A eleição não é uma meta a ser alcançada no fim da vida, mas o alicerce firme sobre o qual toda a nossa vida cristã é construída. A eleição não é condicionada a qualquer ato humano, mas é ato exclusivo de Deus que escolhe os seus eleitos de acordo com a Sua vontade.


O Deus que Justifica e Santifica


Durante os 38 anos que passei nos bancos da CCB, aprendi que a vida cristã era uma constante batalha para manter a “ficha limpa”. Apesar de ter aprendido ali que “meus pecados ficaram nas águas do batismo”, era inevitável que eu caísse no que na época entendia como “erros e falhas” e que são pecados. Por esse motivo, sempre que o fiel da CCB cai ele se sente perdido, desconectado de Deus.


Não à toa é muito comum na CCB pregações que de alguma forma “purificam” ou “limpam” os ouvintes.

É afirmado que “Deus está trocando sua mitra”, “hoje você sairá daqui justificado”, “sinta Deus te lavando agora!”.


Em seu discurso, o ancião da CCB fala que “estamos na fase da justificação” e que “todo santo dia precisamos ser justificados por Deus”. Isso faz sentido na lógica da CCB, mas não no ensino Bíblico. A justificação não é um processo diário ou uma meta a ser atingida ao fim da vida; ela é um ato judicial definitivo e perfeito.


Romanos 5:1 nos garante:

“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus.”

Isso significa que, no momento em que, pela fé, cremos na obra de Cristo, somos declarados justos aos olhos do Pai, não porque nossa ficha esteja limpa de erros, mas porque a justiça perfeita de Cristo foi imputada a nós.


Não precisamos de um “novo veredito” a cada pecado cometido, pois a nossa posição como filhos não flutua conforme o nosso desempenho.

Somos justos porque Ele é justo; somos santos porque Ele é santo.


A justificação é um ato da livre graça de Deus, pelo qual Ele perdoa todos os nossos pecados e nos aceita como justos diante d’Ele, não por qualquer coisa operada ou feita por nós, mas por causa da imputação da obediência e satisfação de Cristo, que é recebida pela fé somente. Isso significa que a justificação é uma ação exclusiva de Deus.


Por outro lado, existe a santificação, que é, sim, um processo contínuo no qual o Espírito Santo nos molda e nos ajuda a mortificar o pecado.

Mas, na teologia bíblica, a santificação é fruto da justificação, e nunca a sua causa. Nós não nos santificamos para sermos aceitos; nós somos santificados porque já somos aceitos.


A confusão que o ancião faz ao dizer que precisamos ser “justificados todo santo dia” é perigosa porque transforma a nossa caminhada cristã em um sistema de pontuação.


Ela esvazia a suficiência da cruz.


Se a justificação precisa ser renovada pelo nosso esforço de “trabalhar o que está escrito”, então a morte de Jesus não foi suficiente. O Deus que revela a Sua Palavra não é um contador de erros à espera de um pedido de desculpas para conceder uma trégua; Ele é o Deus que, pela fé, já nos viu em Cristo e nos declarou justos de uma vez por todas.


O Deus que Garante


A força, poder e soberania de Deus não são demonstrados apenas no início, quando Ele elege os Seus, ou apenas no meio do processo, quando Ele justifica e santifica, mas vão até o fim, quando Ele sustenta e faz perseverar até o fim aqueles que Ele elegeu, justificou, santificou e então glorificará.

Ele é quem “começou em nós a boa obra e a aperfeiçoará até o Dia de Jesus Cristo” (Fp 1:6).


Infelizmente, essa garantia bíblica, que deveria trazer paz e descanso para todos os crentes em Jesus Cristo, é desconhecida pelos membros da CCB.

Muitos na CCB vivem como as palavras do hino 260 do hinário da instituição: ansiosos para serem aceitos. Mas a Bíblia nos apresenta um Deus que sustenta Seus filhos, não um Deus que os mantém em suspense.


João nos diz em sua primeira epístola que “escreveu para que saibamos que temos a vida eterna” (1 Jo 5:13) e em seu evangelho registra as palavras de Jesus dizendo que Ele “nos deu vida eterna” e que “ninguém nos arrebatará de suas mãos” (Jo 10:28–29).


Nossa segurança não está nos esforços precários dos nossos braços, mas na mão forte do Senhor.

Ele é perfeito, todo-poderoso e tem todas as coisas sob seu domínio. Nenhum plano seu pode ser frustrado.


O Deus que escolhe os seus eleitos é o mesmo que se levanta do trono para operar neles a regeneração, justificação, santificação e por fim a glorificação.

Diferente de uma criança que teme ser devolvida ao orfanato por um erro, o filho de Deus descansa na promessa de que seu Pai não desiste da obra que começou. Aquele que verdadeiramente crê na obra de Jesus Cristo pode confiar quando Ele diz:

“Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida.” (João 5:24)

Conclusão


A história da salvação contada na Bíblia mostra um Deus soberano e poderoso que nos amou e nos reconciliou pela morte de seu Filho quando ainda éramos seus inimigos (Rm 5:10).


Essa narrativa nos revela um Pai amoroso que perdoa a iniquidade, esquece a rebelião e não mantém a ira para sempre (Mq 7:18), lançando todos os nossos pecados nas profundezas do mar (Mq 7:19).


Todo aquele que crê na obra salvadora de Cristo recebe o direito de se tornar filho de Deus (Jo 1:12).

Deus não é um Pai distante que tem uma ficha na mão para anotar nossos mínimos erros.


Ele é um Pai amoroso que nos ensina, guia, cuida, provê, apoia e também nos disciplina em amor para nossa santificação.


Não precisamos agir como a pequena Karen e seus irmãos adotivos que tentavam comprar o amor de seu pai através de um comportamento perfeito. A nossa adoção é um ato irrevogável de graça. A nossa justificação é um veredito encerrado na cruz do Calvário. E a nossa perseverança é garantida não pela firmeza das nossas mãos, mas pela fidelidade daquele que começou a boa obra em nós e prometeu que nunca nos deixará nem nos abandonará.


Que hoje você possa trocar o fardo pesado do “evangelho que escraviza” pelo jugo suave de Cristo. Descanse no Deus que elege, no Deus que justifica e no Deus que garante a sua salvação. Pois, no fim, a glória não será do nosso comportamento, mas da Sua inabalável misericórdia.


Está consumado!




Comentários


bottom of page