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SOBRE A PALAVRA ESCRITA E A VOZ DE DEUS

  • Foto do escritor: Ricardo Albuquerque
    Ricardo Albuquerque
  • 18 de jun.
  • 7 min de leitura

Visão em Tábuas – 5ª edição 


Graça e Paz do Senhor Jesus!


Há ocasiões na vida da Igreja em que os erros mais perigosos não chegam vestidos como inimigos da fé, mas como seus amigos mais devotos. Não entram pela porta da negação aberta, mas pela janela da ênfase deslocada. Não dizem que a Escritura é falsa; apenas lhe retiram, pouco a pouco, a posição que Deus lhe concedeu. E quando isso acontece, o dano produzido pode ser ainda maior, porque muitos dos fiéis continuam acreditando estar defendendo a verdade enquanto, na realidade, já começaram a abandonar seu fundamento.


Recentemente, ouvi ensinamentos apresentados em um culto transmitido pela internet por um dos principais dirigentes de uma conhecida comunidade religiosa brasileira. Naquela mensagem, argumentou-se que o Senhor Jesus não escreveu livro algum; que as Escrituras consistem em livros maravilhosos produzidos por homens; que esses livros um dia desaparecerão; e que a verdadeira Palavra de Deus seria aquela que fala diretamente ao coração do homem, sendo transmitida oralmente por intermédio da pregação.


À primeira vista, tais afirmações parecem inofensivas. Algumas delas contêm elementos verdadeiros. Nosso Senhor, de fato, não deixou qualquer tratado escrito por Sua própria mão. Os Evangelhos registram apenas o episódio misterioso em que escreveu sobre o chão (João 8:6-8).


Mas a questão decisiva não é aquilo que Cristo escreveu pessoalmente; a questão é aquilo que Cristo ordenou.


O mesmo Senhor que não escreveu os Evangelhos instituiu apóstolos. O mesmo Senhor que não redigiu epístolas prometeu inspiração divina aos que as escreveriam. O mesmo Senhor que não compôs o Novo Testamento declarou aos seus discípulos:

“Quem vos ouve, a mim me ouve.” (Lc 10:16)

E novamente:

“O Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito.” (Jo 14:26)

A implicação é inevitável. Se os escritos apostólicos são fruto dessa promessa, então rejeitar sua autoridade não é exaltar Cristo; é separar Cristo daqueles que Ele mesmo enviou.


Existe uma curiosa tendência humana de imaginar que a palavra falada é mais viva do que a palavra escrita. O argumento parece plausível até percebermos que Deus pensou exatamente o contrário.


Quando desejou preservar Sua aliança, escreveu-a em tábuas de pedra.


Quando desejou instruir Israel, ordenou que Sua Lei fosse registrada.


Quando Cristo enfrentou Satanás no deserto, não apelou para impressões interiores, sentimentos espirituais ou experiências místicas. Respondeu três vezes com a mesma expressão:

“Está escrito.”

Não disse: “Sinto em meu coração.”


Não disse: “Recebi uma direção.”


Não disse: “Uma voz interior me revelou.”


Disse:

“Está escrito.”

A fé bíblica possui uma característica singular entre as religiões do mundo: ela repousa sobre atos históricos de Deus interpretados por uma revelação escrita igualmente histórica.


O cristianismo não é uma religião fundada em sentimentos, mas em acontecimentos. E esses acontecimentos nos chegam mediante testemunhas inspiradas.


É precisamente aqui que a história da Igreja se torna instrutiva.


No segundo século surgiram os gnósticos. Eles não negavam completamente os apóstolos. Apenas afirmavam possuir algo além dos apóstolos: um conhecimento superior, mais profundo, mais espiritual.


Pouco depois apareceu Montano, acompanhado de suas profetisas Priscila e Maximila. Não rejeitavam a Escritura. Apenas alegavam possuir revelações mais imediatas.


Nos séculos medievais surgiram diversos grupos que reivindicavam iluminação direta do Espírito acima da Palavra escrita.


No século XVI, durante a Reforma, Lutero precisou combater os chamados Schwärmer, os “entusiastas”, homens convencidos de que a voz interior possuía autoridade superior ao texto bíblico.


A observação de Lutero permanece devastadoramente atual: sempre que alguém afirma possuir o Espírito sem a Palavra, acaba terminando com um espírito diferente daquele que inspirou a Palavra.


João Calvino escreveu algo semelhante ao advertir que o Espírito Santo não foi enviado para revelar novas doutrinas, mas para selar em nossos corações a verdade já revelada.


Essa foi, de fato, a posição unânime da cristandade histórica.

  • Santo Agostinho

  • Atanásio

  • Crisóstomo

  • Anselmo

  • Lutero

  • Calvino

  • Os puritanos

  • Os reformadores ingleses

  • Os teólogos de Westminster

  • Os reformados holandeses


Todos divergiram em muitos pontos. Contudo, encontraram extraordinária unidade em um ponto: Deus fala hoje por meio da Palavra.

“Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.” (Hb 1:1-2)

A razão para isso é profundamente simples.


Se a voz interior se torna a autoridade final, então desaparece qualquer critério objetivo para distinguir a verdade do erro.


Um homem afirma sentir uma coisa.


Outro homem afirma sentir o contrário.


Quem decidirá entre eles?


Se a Escritura for removida do tribunal, restará apenas a disputa entre experiências pessoais.

E a própria Bíblia nos alerta:

“Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas.” (Jr 17:9)

Observe a sabedoria divina. Deus nunca entrega Seu povo à tirania das emoções. Ele oferece uma norma externa pela qual as emoções podem ser julgadas.


A Escritura não existe porque Deus desconfia de Sua capacidade de falar ao coração. Ela existe porque Deus conhece a instabilidade do coração humano.


É por isso que os bereanos foram elogiados em Atos 17:11. Não porque aceitaram a pregação apostólica sem questionamentos, mas porque examinaram diariamente as Escrituras para verificar se aquilo era verdadeiro.


Imagine o escândalo dessa cena.


Um apóstolo inspirado está pregando e os ouvintes conferem sua mensagem à luz das Escrituras.

Longe de repreendê-los, o Espírito Santo os chama de nobres.


A conclusão é inevitável.


Se até Paulo deveria ser examinado pelas Escrituras, certamente qualquer pregador contemporâneo deve ser igualmente examinado.


Chegamos, então, ao ponto mais delicado e isso me perturba feito assobios agudos de um grilo dentro de um aposento fechado.


Quando alguém descreve a Bíblia apenas como “livros maravilhosos escritos por homens”, ainda que não perceba, já começou a enfraquecer a doutrina da inspiração.


Pois a Escritura não reivindica para si mesma ser apenas um belo registro religioso.


Ela reivindica algo infinitamente maior:

“Toda a Escritura é inspirada por Deus.” (2Tm 3:16)

O verbo utilizado por Paulo não significa que Deus inspirou sentimentos religiosos nos autores.


Significa que a Escritura foi soprada por Deus.


Sua origem última não é humana.


Seu autor supremo não é Moisés.


Nem Isaías.


Nem Mateus.


Nem João.


Nem Paulo.


Seu autor supremo é o próprio Deus.


É precisamente por isso que a Igreja histórica sempre confessou a inspiração verbal e plenária das Escrituras.


Verbal significa que Deus não inspirou apenas ideias gerais, mas as próprias palavras pelas quais essas verdades foram comunicadas. Não quer dizer que Deus ditou mecanicamente cada frase, como um secretário recebendo um texto pronto. Significa que o Espírito Santo supervisionou a escrita de tal modo que os autores utilizaram seu vocabulário, personalidade, estilo e formação cultural, mas escreveram exatamente aquilo que Deus desejava comunicar.


Já a inspiração plenária significa que a inspiração se estende à totalidade da Escritura. Não apenas algumas partes. Não apenas os ensinamentos morais. Não apenas as palavras de Jesus registradas nos Evangelhos.Toda a Escritura é igualmente inspirada por Deus. A inspiração abrange Gênesis, Salmos, Isaías, Mateus, Romanos e Apocalipse.Existem diferentes gêneros literários, diferentes autores humanos e diferentes contextos históricos, mas a origem divina é a mesma.


Remova essa verdade e a Bíblia torna-se apenas literatura religiosa.


Preserve-a e a Bíblia permanece aquilo que sempre foi:A voz escrita do Deus vivo.


Silencie esse grilo, por favor!


A verdadeira alternativa nunca foi entre Palavra escrita e Espírito Santo.


Essa é uma falsa dicotomia.


O Espírito Santo é o autor da Palavra.


E o autor não luta contra sua própria obra.


Toda vez que alguém coloca a experiência acima da Escritura, a voz humana acima da revelação ou a instituição acima da verdade bíblica, está repetindo um dos erros mais antigos da história cristã.


A Igreja floresce quando permanece de joelhos e com a Escritura aberta: no coração e nos lábios.

A Igreja adoece quando coloca a Escritura de joelhos diante dos homens.


Notem, oh crentes: quando a experiência passa a ocupar o lugar da Escritura, a autoridade deixa de estar em Deus e passa a estar no intérprete da experiência.


Na prática, isso significa que alguém acaba dizendo:


“Não confie no que a Bíblia diz; confie no que eu digo que Deus está dizendo.”


James Innell Packer observou um fenômeno recorrente na história cristã: há grupos que professam altíssima reverência pela Bíblia, mas desencorajam sua leitura crítica e cuidadosa.


Segundo Packer, existe uma diferença entre honrar a Bíblia e permitir que a Bíblia governe.


Uma instituição pode exaltar verbalmente as Escrituras e, ao mesmo tempo, impedir que elas questionem suas próprias tradições.


Os puritanos ingleses repetiam frequentemente um princípio:

“A Escritura interpreta a Escritura.”

Eles desconfiavam profundamente de qualquer sistema religioso que exigisse que o fiel aceitasse determinada interpretação apenas porque ela vinha de uma autoridade humana.


Para eles, o cristão deveria ouvir seus pastores com respeito, mas examinar tudo à luz da Palavra.


Curiosamente, o Novo Testamento estabelece exatamente o contrário da censura ao exame das Escrituras.


Os bereanos são elogiados porque verificavam a pregação apostólica (At 17:11).


Paulo manda: “Julgai todas as coisas.” (1Ts 5:21)


João escreve:“Não creiais em todo espírito, mas provai os espíritos.” (1Jo 4:1)


E Isaías declara: “À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva.” (Is 8:20)


Um sinal de saúde espiritual não é quando uma igreja diz que ama a Bíblia, mas quando ela permite que a Bíblia examine suas próprias doutrinas, tradições, líderes e práticas.


Uma comunidade pode evidenciar a Bíblia no púlpito, citá-la constantemente e chamá-la de Palavra de Deus. A pergunta decisiva é outra: o membro é livre para verificar, pelas Escrituras, se aquilo que está sendo ensinado realmente corresponde ao que Deus revelou?


Foi exatamente esse princípio que os reformadores, os puritanos e os teólogos posteriores defenderam como indispensável para a preservação da verdade cristã.


Pois o céu e a terra passarão.


As instituições humanas passarão.


Os pregadores passarão.


As gerações passarão.


Mas a Palavra do Senhor permanece eternamente.


Sola Scriptura!

1 comentário


edson.feriani
18 de jun.

Perfeito o seu texto irmão Ricardo. É de uma verdade absoluta. Lendo este texto, dobro os joelhos diante de Deus para agradecê-lo por ter me iluminado e me transformado para conhecer as verdades de Deus me livrando de sentimentos, erros humanos, doutrinas herética de homens. Glória a Deus!

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