EXORTAÇÃO À SANTIDADE E AO FIEL PROCEDER
- Ricardo Albuquerque

- há 2 horas
- 5 min de leitura
Contradita Teológica à Circular nº 243/2026: Do Aconselhamento sobre as Festas Civis e a Natureza do Pecado
"Não rogo que os tires do mundo, mas que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como eu do mundo não sou. Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade." (Jo 17.15-17)
À amada irmandade, graça e paz da parte daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.
Em atenção à Circular nº 243/2026, que trata das festividades populares do carnaval, é imperioso evitarmos o erro reducionista de limitar a ação do mal a datas ou espaços geográficos específicos. Embora ambientes de festividade mundana sejam flagrantemente nocivos à fé e à pureza, uma vez que ali o pecado é celebrado de forma ostensiva, devemos recordar que "o mundo inteiro jaz no maligno" (1 Jo 5.19) de maneira sistêmica. A nossa luta contra as hostes espirituais da maldade (Ef 6.12) não conhece trégua ou fronteira física; ela se trava tanto no recôndito do lar quanto na praça pública. Portanto, a vigilância cristã deve ser constante, fundamentada na certeza de que o perigo reside não apenas no ambiente externo, mas na inclinação do coração em conformar-se ao presente século.
A Antropologia Bíblica e a Responsabilidade Humana
É fundamental que nossa exortação não se baseie em um "misticismo de contágio", mas na sólida antropologia bíblica. Ao analisarmos o comportamento humano em tais eventos, não devemos cometer o equívoco teológico de "terceirizar" a culpa. Carece de precisão doutrinária a afirmação de que:
“nesse evento, ocorrem atuações de forças espirituais contrárias que induzem a promiscuidade, prostituição, luxúria, blasfêmias, nudez, profanação, uso intenso de drogas, libertinagens e várias outras possessões malignas”. (Circular nº 243/2026)
O Senhor Jesus Cristo localizou a fonte do mal com precisão cirúrgica: “Porque do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias” (Mt 15.19).
Neste pronunciamento, Jesus não se limita a proferir uma mera exortação ética ou um conselho de conduta moral; Ele opera, em verdade, uma profunda desconstrução do sistema ritualístico farisaico. Ao confrontar a tradição dos anciãos, o Redentor realiza uma autêntica autópsia da alma corrompida, expondo a anatomia da queda humana. Ele demonstra que o pecado não é um agente patógeno externo que infecta o homem por meio do contato social ou da transgressão de ritos de purificação, mas sim uma patologia congênita da vontade. Assim, ao deslocar o foco do ritual para o coração, Jesus inverte essa lógica, expondo a hipocrisia deles ao citar Isaías e afirmar que o povo o honrava com os lábios, mas mantinha o coração distante.
A transgressão não é um acidente circunstancial, mas a manifestação orgânica de uma natureza radicalmente inclinada ao mal.
Ao declarar que "do coração procedem os maus pensamentos, mortes, adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias", Jesus identifica a sede da vontade humana. No pensamento bíblico, o coração, kardia, no grego, não é o órgão das emoções românticas, mas o centro da personalidade, onde residem o intelecto e as decisões. Ao dizer que esses males "procedem" do âmago humano, Jesus utiliza o verbo exerchomai, que significa sair de dentro ou brotar. Isso implica que o pecado não é um acidente de percurso ou uma influência ambiental irresistível, mas um produto da "fábrica" interna do homem caído. Jesus lista então uma taxonomia do pecado que abrange desde a origem intelectual, os maus pensamentos ou dialogismoi poneroi, até violações contra a vida, a família, a verdade e a santidade direta de Deus.
Esta síntese fundamenta o que a Teologia denomina como Depravação Total. Tal doutrina não sugere que o homem seja tão mau quanto poderia ser em suas ações, mas que todas as suas faculdades, razão, vontade e emoções, foram maculadas pela queda. O pecado é apresentado por Jesus como uma enfermidade da natureza: se a árvore (o coração) é má, os frutos (ações externas) são apenas o resultado inevitável de sua essência. Portanto, o ritualismo é insuficiente; se o problema está no manancial, lavar as mãos ou mudar de ambiente é inútil. A solução não reside em uma reforma comportamental superficial, mas na regeneração operada pelo Espírito Santo, o novo nascimento que substitui o coração de pedra por um de carne.
Em suma, Mateus 15.19 ensina que o ambiente, embora ofereça a ocasião para o tropeço, jamais é a causa primária do pecado. Ao localizar a maldade no coração, Jesus remove as desculpas baseadas em "influências espirituais externas" ou "pressões sociais", colocando o homem diante de sua responsabilidade ética perante o Criador. Se o mal brota do nosso próprio ser, não precisamos meramente de um manual de etiqueta religiosa ou de isolamento social, mas da graça transformadora de Cristo, a única capaz de purificar a fonte de onde emanam nossas inclinações.
O pecado, portanto, não é uma invasão externa, mas uma erupção interna. Atribuir a devassidão prioritariamente a uma "atuação de forças contrárias" é negligenciar a doutrina da Depravação Total. O homem natural não peca por coação demoníaca; ele peca porque sua vontade está escravizada pela própria natureza caída. Como ensina o apóstolo Tiago, o mecanismo da queda é endógeno: “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência”. (Tg 1.14).
Mortificação e Santidade
A licenciosidade carnavalesca não deve ser lida como um estado de "endemoninhamento involuntário", mas como o exercício de uma vontade rebelde. Tratar vícios e imoralidades apenas como "possessão" pode, inadvertidamente, desculpar a rebeldia ética do indivíduo e obscurecer a necessidade de arrependimento e mortificação da carne (Rm 8.13). Nossa abstenção dessas festas não deve ser motivada pelo medo supersticioso de uma "exposição ao mal", como se o crente fosse vulnerável a influências automáticas, mas pelo zelo pela santidade e pela compreensão de que o maior campo de batalha espiritual está dentro de nós.
O "mundo" referido em 1 João 2:15-16 não é um local físico, mas um sistema de valores que substitui o Criador pela criatura. Assim, evitamos tais celebrações por consciência de que elas alimentam a concupiscência que ainda tenta habitar em nós, e não porque o ambiente possua um poder de corrupção autônomo. Nossa luta principal é contra a incredulidade e a inclinação do coração que insiste em buscar satisfação fora da suficiência de Cristo.
Que nossa fidelidade não se sustente em um isolacionismo místico, mas em uma vida coram Deo, diante da face de Deus. A santidade que buscamos é positiva: ela nos afasta do erro para nos consagrar ao serviço do Reino. Reconhecemos que Jesus Cristo é soberano sobre todo o tempo e espaço, e que nEle temos poder para resistir tanto às exibições públicas de pecado quanto às sutis tentações do orgulho religioso.
“Pela misericórdia e verdade a iniquidade é perdoada, e pelo temor do Senhor os homens se desviam do pecado”. (Pv 16.6)



Comentários