EXPOSIÇÃO DOUTRINÁRIA E CONTRADITA TEOLÓGICA À CIRCULAR Nº 174/2023
- Ricardo Albuquerque

- há 1 dia
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Ref.: Análise Crítica dos Pressupostos de Unidade e Liberdade Cristã face à Circular "Vídeos e áudios que infamam a igreja" , de 29 de outubro de 2023.
Prezados em Cristo,
A análise da recente missiva expedida pelo Conselho da Presidência dos Anciães Mais Antigos do Brasil impõe uma necessária reflexão sob o prisma bíblico. Embora o texto apele à paz e à unidade, uma observação mais criteriosa revela distorções que exigem reparação teológica.
Da recomendação proibitória
O parágrafo preambular da referida circular exorta a irmandade a ignorar conteúdos que supostamente se dedicam a "atacar" a instituição e seus representantes. Todavia, impõe-se o questionamento introdutório: o que se define, tecnicamente, como ataque? Se o termo é utilizado para rotular a exposição bíblica daqueles que, por imperativo de consciência e fidelidade às Escrituras, desligaram-se da tradição por discordarem de distorções doutrinárias específicas, então a acusação carece de objeto e de fundamento cristão. O zelo pela sã doutrina não é agressão; é cumprimento do mandato de "batalhar pela fé que uma vez foi entregue aos santos" (Judas 1:3).
A carta afirma, de forma temerária, ser "flagrante o mau intento desse trabalho perverso" . Sob a ótica da Sociologia da Religião, tal afirmação configura um reducionismo estigmatizante, que engloba uma coletividade heterogênea em um único "sujeito ativo" maligno. Ao generalizar, a instituição ignora as motivações sinceras e as dores espirituais de muitos que saíram. Do ponto de vista sociológico, essa estratégia de "demonização do outro" serve para fortalecer a coesão interna por meio do medo, mas falha gravemente na caridade cristã ao atribuir a todos uma "conduta rude" e a ausência de desejo de edificar o povo de Deus.
É lícito, pergunto eu, à luz da ética cristã, aniquilar a reputação de todo um grupo para preservar uma estrutura administrativa?
Diferente de uma obediência cega, a conversão bíblica é exemplificada em Zaqueu, o publicano (Lc 19). Nele, vemos que a verdadeira metanoia não nasce da proibição externa, mas do convencimento interno do Espírito Santo. Zaqueu não seguiu um regulamento de castas ou proibições; ele, voluntariamente, propôs a reparação. Uma igreja que determina o que seus membros podem ou não consumir intelectualmente subestima a obra regeneradora do Espírito, que capacita o fiel a "julgar todas as coisas" (1 Co 2.15).
Ademais, a acusação de que tais pessoas agem com o "propósito principal de auferir renda, provenientes da monetização" carece de honestidade intelectual. Questiona-se: a monetização de conteúdos em plataformas digitais é conduta vedada pelo ordenamento jurídico ou pela da denominação que assina a carta? Se a própria instituição utiliza as mesmas plataformas para suas transmissões, como pode estigmatizar o meio técnico utilizado por outros? Se o argumento é o lucro, deve-se provar o dolo, sob pena de incorrer em falso testemunho.
Se as críticas da circular se dirigissem a um grupo ínfimo que pratica a difamação pessoal e a calúnia, a medida cabível seria a esfera jurídica individual. Contudo, ao manter uma carta de largo espectro sendo lida e reiterada por três anos, a instituição comunica, por meio de uma linguagem de controle, que todos os que questionam seus dogmas são "perversos" . Quem, de fato, está sendo rude? Os que buscam a verdade bíblica ou aqueles que lançam dardos de julgamento, afirmando que no próximo não se manifesta o Espírito Santo, mas um "espírito de conflito"? Tal postura é que destoa flagrantemente da mansidão de Cristo.
A classificação da correção teológica como "perverso" é uma inversão de valores bíblicos. O manejo da Palavra (II Tm 2.15) exige a capacidade de "convencer os contradizentes" (Tt 1.9)
A insegurança mencionada pela circular não nasce da exposição ao erro, mas do choque de realidade quando a consciência desperta para a verdade. Quando Paulo confrontou os Gálatas, ele provocou uma provável "confusão" necessária para desestruturar o legalismo e restaurar a centralidade da Graça.
Questionar distorções como a interpretação restritiva do "pecado para morte" , frequentemente limitada a pecados sexuais para fins de exclusão social e estigma, não é rebeldia, mas zelo bíblico em compromisso com a verdade que liberta. Tentar silenciar o debate teológico chamando-o de "mercenário" é um anacronismo que visa apenas o assassinato de reputações para evitar a inadiável reforma de pensamento.
A carta afirma que os críticos semeiam "dissenções" e não manifestam o "bom cheiro de Cristo" . Ora, tal afirmação ignora que o próprio Evangelho é, por definição bíblica, um escândalo (skandalon). Paulo, em 1 Coríntios 1:23, declara que pregava a Cristo crucificado, "escândalo para os judeus e loucura para os gentios" . O próprio Cristo é chamado de "pedra de tropeço e rocha de escândalo" (1 Pe 2.8).
A paz que a missiva defende parece ser a pax romana, uma ausência de conflito baseada na supressão da divergência. No entanto, o apóstolo Paulo afirma categoricamente em 1 Coríntios 11:19: "E até importa que haja entre vós facções, para que os que são aprovados se tornem manifestos entre vós" . O questionamento doutrinário não é, portanto, um "trabalho perverso" , mas muitas vezes o instrumento divino para separar o trigo do joio e a verdade do erro.
A acusação de que a exposição de erros doutrinários é uma "conduta rude" que destoa do Espírito Santo ignora o exemplo de nosso Senhor Jesus Cristo. Em Mateus 23, Jesus não poupou adjetivos ao confrontar o sistema religioso de sua época, chamando os líderes de "sepulcros caiados" , "guias cegos" e "raça de víboras" .
Jesus combatia a "tradição dos anciãos" (Mc 7) que invalidava a Palavra de Deus em favor de preceitos humanos. Questionamos: se o trabalho de expor o erro e o legalismo é "perverso" , como classificar as palavras de Jesus ou a epístola aos Gálatas, onde Paulo chama de "anátema" aqueles que pregavam "outro evangelho" (Gl 1:8-9)? A "agressão" percebida pela instituição é, frequentemente, apenas a reação da estrutura legalista ao ser confrontada pela liberdade do Evangelho.
É imperativo denunciar a generalização que a carta faz ao rotular todos os que saíram como "facciosos" ou motivados por lucro. Tal postura nega a existência da Igreja Invisível e incorre no pecado da calúnia contra irmãos fiéis que, por dever de consciência, buscaram comunidades onde o Evangelho é pregado sem as amarras do exclusivismo institucional.
Embora o exclusivismo religioso possa não estar explicitamente detalhado em seus documentos oficiais, ele se manifesta de forma inequívoca na prática cotidiana da instituição. Um exemplo contundente dessa postura é a restrição imposta à liberdade cristã de membros que contraem matrimônio com cristãos de outras denominações.
Ainda que o cônjuge professe uma fé sólida e seja oriundo de tradições comprometidas com o Evangelho, o fiel da referida instituição é privado de sua plena participação e manifestação nos cultos. Essa sanção disciplinar, que cerceia a liberdade de culto do indivíduo, só é revogada mediante a submissão do cônjuge a um novo batismo. Tal exigência não apenas ignora a unidade do Corpo de Cristo, mas instrumentaliza o sacramento como um pedágio institucional, elevando a organização ao status de 'caminho exclusivo' e sobrepondo a norma administrativa à realidade espiritual da comunhão em Cristo. "
O próprio hino 195 do antigo Hinário 4 da referida instituição, intitulado 'Anunciai o Santo Evangelho' , trazia em seus versos a expressão: 'Não mais duvides, este é o caminho' . Contudo, penso eu, a frase carece de clareza, pois pode sugerir que o 'caminho' refere-se à igreja mencionada. É imperativo corrigir essa percepção para que a mensagem seja fiel ao Evangelho: Cristo é o Caminho (Jo 14.6). A igreja atua apenas como a anunciadora dessa verdade, e não como o caminho em si. Se a salvação depende da placa ou da submissão a um conselho humano, a Cruz de Cristo foi esvaziada de seu poder.
Manter o povo sob o terror de um erro doutrinário não é "zelo" , é terrorismo espiritual. O trabalho apologético, longe de buscar a polemização por lucro, busca a iluminação das consciências. Se a compreensão do Evangelho renova o entendimento (Rm 12.2) e isso gera "insegurança" no sistema vigente, a falha não está no pregador da verdade, mas no sistema que foi construído sobre areias movediças de tradições humanas e interpretações isoladas.
A Sociologia do Exclusivismo e a Anatomia do "Cancelamento" Espiritual
A postura de exigir silêncio daqueles que se retiram, rotulando qualquer reflexão crítica como "ingratidão" ou "rebeldia" , revela uma mecânica de controle social que transcende a espiritualidade e adentra o campo das Instituições Totais, conforme conceituado por Erving Goffman.
A Falácia da Ingratidão: "Cuspindo no Prato que Comeu"
O uso da expressão popular "cuspir no prato em que comeu" para deslegitimar o dissidente é um erro de categoria teológica e sociológica. Na economia da Graça, o "prato" (a Palavra, o Alento, a Vida) pertence exclusivamente a Deus, não à instituição. Se um fiel se retira de um sistema por perceber distorções doutrinárias, ele não está rejeitando o "alimento" divino, mas sim o "recipiente" institucional que se tornou tóxico ou restritivo.
Essa retórica serve para gerar um constrangimento moral, transformando a busca por fidelidade bíblica em uma suposta falha de caráter (ingratidão). É uma tentativa de sequestrar a consciência do indivíduo através da culpa social.
O Uso Instrumental de 1 João 2:19: "Saíram de nós porque não eram de nós"
A aplicação deste versículo para justificar o ostracismo de quem migra para outras denominações cristãs é uma exegese violenta e anacrônica. "Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, teriam permanecido conosco... " (1 João 2:19)
No contexto joanino, o apóstolo referia-se aos anticristos que negavam a encarnação de Jesus e abandonavam a fé cristã em si. Utilizar esse texto para condenar irmãos que permanecem confessando a Cristo, mas em outra tradição (reformada, presbiteriana, batista, etc.), é um abuso interpretativo. O "nós" de João é a Igreja Universal e Apostólica; o "nós" da instituição é, frequentemente, apenas o seu estatuto particular.
A Cultura do Cancelamento e a "Morte Social"
O que se observa na prática é uma forma arcaica e religiosa da Cultura do Cancelamento. Quando um membro sai e é descredibilizado, ocorre o que a sociologia chama de estigmatização do desviante.
A pressão para que amigos e familiares se afastem do "infamado" é uma ferramenta de manutenção de poder. Ao romper os laços de afeto, a instituição pune o dissidente com a "morte social" , enviando uma mensagem pedagógica de medo aos que ficam, trata-se de verdadeiro ostracismo familiar e afetivo.
Ao invés de responder aos argumentos teológicos (os erros sobre o pecado de morte, o exclusivismo, o legalismo), a instituição ataca o indivíduo. Transforma-se a divergência de ideias em uma patologia espiritual ou em um desvio moral (ambição financeira, orgulho). É a “desumanização do Crítico” .
É irônico que se exija uma "postura de paz" de quem sai, enquanto a própria instituição promove a divisão ao não reconhecer a validade do cristianismo alheio. O cristão que exercita a reflexão crítica está, na verdade, cumprindo o seu dever de não se conformar com este século (ou com sistemas eclesiásticos engessados).
Se o "bom cheiro de Cristo" é confundido com o "silêncio dos omissos" , então o Evangelho perdeu sua força libertadora. A liberdade de consciência, comprada pelo sangue de Cristo, não pode ser trocada por uma harmonia de fachada baseada no medo do cancelamento social.
Nota-se que a instituição impõe aos que se retiram um "silêncio de degredo" . Historicamente, o degredo era uma pena de banimento que não apenas afastava o indivíduo de sua pátria, mas buscava apagar sua identidade e influência no corpo social; era a morte civil antes da morte física. Sob a ótica da Sociologia, a exigência desse silêncio absoluto dos retirantes serve para manter a higienização da narrativa interna: o dissidente deve calar-se para que sua saída seja lida apenas como uma "queda" ou "desvio" , e nunca como um ato de consciência ou objeção teológica fundamentada.
Entretanto, essa imposição revela uma hipocrisia estrutural e filosófica. Enquanto se exige a mudez do "exilado" , a instituição e seus membros remanescentes rompem o próprio silêncio para exercer o que a Filosofia do Direito e a Ética chamariam de "justiça de turba" . A leitura sistemática de cartas e os aconselhamentos tendenciosos após o culto funcionam como um julgamento à revelia, onde o ausente não possui direito à contradita.
Teologicamente, isso descamba para o pecado da difamação e do falso testemunho, amplificado pelas redes sociais, onde a irmandade, sentindo-se autorizada pelo tom das circulares oficiais, ataca e achincalha os egressos.
Cria-se, assim, um cenário dantesco: o retirante é condenado ao isolamento do degredo, enquanto a instituição utiliza o púlpito e o ambiente digital como ferramentas de um linchamento moral contínuo, provando que o objetivo não é a paz, mas a manutenção da hegemonia por meio da aniquilação da reputação do outro.
Por fim, cumpre esclarecer que as palavras aqui exaradas não nascem de um espírito de contenda ou de um desejo de enfrentamento estéril.
O signatário desta contradita guarda profundo respeito e sincero afeto por incontáveis irmãos que permanecem sob aquela tradição religiosa; almas preciosas com quem compartilhei o pão, as orações e o anseio pela Eternidade.
Todavia, o amor bíblico não é conivente com o erro, nem o afeto pode servir de mordaça à consciência cativa às Escrituras. Não me é lícito imiscuir-me do dever profético de proclamar a verdade, pois, como ensina o apóstolo Paulo: "Porque nada podemos contra a verdade, senão pela verdade" (2 Co 13.8).
É fundamental asseverar que, de forma alguma, pretende-se com este manifesto promover a "divisão no Corpo de Cristo" . Rejeito, por imperativo de fé, a pecha de que este zelo provoque "questões controversas e debates inúteis que produzem muito calor e nenhuma luz" , conforme afirma a referida carta circular. Tal acusação confunde erroneamente a apologética bíblica com o sentimento faccioso, que busca a glória de grupos ou homens; a defesa da fé busca a glória de Deus e a libertação dos cativos pelo legalismo. Onde há exposição fiel da Palavra, não há "calor hostil" , mas a "Luz do Mundo" que dissipa as trevas das tradições humanas. Se a verdade provoca desconforto, a causa não reside em quem a anuncia, mas na estrutura que se sente ameaçada pela clareza do Evangelho.
Destarte, este manifesto não se ergue como um libelo de insurgência, mas como um gesto de caridade para com a Igreja Invisível de Cristo, que transcende fronteiras institucionais e jurisdições humanas. É um apelo ao reconhecimento de que a unidade do Espírito não se firma em uniformidades administrativas, mas no "vínculo da perfeição" que é o amor. Elevo, pois, minha súplica para que a graça redentora do Senhor Jesus, o amor imensurável de Deus Pai e a comunhão do Espírito Santo não sejam apenas fórmulas litúrgicas, mas a única e soberana égide a guiar nossas consciências, conduzindo-nos para além das sombras da tradição, em direção à plenitude da Verdade que liberta.
A Igreja de Cristo é livre, e a Verdade não precisa de editais de silenciamento para se sustentar.
Em Cristo, por Sua Palavra e para Sua Glória.



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