CCB, o discurso de mudança e os evidentes motivos desconsiderados
- ESM - Evangelho Sem Muros

- 12 de set. de 2025
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São Paulo, 25 de agosto de 2025 A Congregação Cristã no Brasil (CCB), originalmente um movimento evangélico-pentecostal com influências ítalo-americanas do início do século passado (embora seus próprios membros não aceitem a maior parte dessas caracterizações), completou 115 anos em terras brasileiras. Durante a maior parte desse centenário, o orgulhoso ditado tradicionalista "a obra de Deus [CCB] não muda" foi um dos jargões mais generalizados entre a irmandade. Agora, porém, cresce gradualmente o discurso de que grandes e profundas mudanças estão ocorrendo em algumas das principais perspectivas que marcaram e formaram a identidade da denominação no decorrer dos anos, como, por exemplo, seu exclusivismo, separatismo e tradicionalismo religioso. Basicamente, os defensores desse discurso, os otimistas, asseguram que a CCB tem se aproximado do ideal bíblico como instituição cristã, eliminando seus equívocos teóricos e práticos e gerando grandes mudanças. Afinal, como comumente afirmam, "essa obra [CCB] avança de luz em luz".
Na realidade, o que tenho visto são posicionamentos estabelecidos por novos tópicos e circulares de esclarecimento emitidos pela CCB, redigidos principalmente devido ao atual contexto de grande crítica que o movimento tem sofrido em relação a suas doutrinas, práticas e cultura religiosa. Essa situação também se deve ao grande número de adeptos que saíram ou migraram para outras denominações cristãs, sobretudo a partir da pandemia (2020 em diante), período em que os cultos precisaram ser transmitidos pela internet (YouTube) de forma amplamente difundida. Esse cenário propiciou não apenas a redução do número de membros, mas também a dos recursos recebidos para sustentar a estrutura institucional e o andamento dos trabalhos propostos. Outro elemento muito caro à instituição passou a ser comprometido: a sua imagem. As características que antes marcavam a boa imagem externa, como organização, ordem, responsabilidade fiscal, aparência respeitável e seriedade moral, são cada vez mais ofuscadas pelas críticas severas acerca dos desvios bíblicoteológicos, comportamentais e práticos do movimento, também facilitadas pelo uso das redes sociais e plataformas digitais. Em resumo, os fatores que estabelecem o contexto sobre o qual os novos posicionamentos da CCB surgem são: a imagem institucional afetada, a perda de adeptos, a diminuição de recursos e o aumento excessivo das críticas à denominação, que também geram muitos questionamentos internos.
Portanto, esse suposto processo de mudança, representado por frases como: "A CCB não é a Graça de Deus", "A Salvação está em Cristo e não em instituições", "A Bíblia pode ser estudada por aqui, sim!", "Os irmãos em Cristo não estão limitados à irmandade da CCB", entre outras, não se trata de um legítimo despertar espiritual, nem nasce da avaliação piedosa das Sagradas Escrituras em confronto com a religiosidade, os costumes e a tradição da própria denominação. Infelizmente, as mudanças concretas só acontecem no papel e, por isso, não geram efeitos práticos ou planos de ação para que tais ideias sejam frequentemente expostas, ensinadas e incutidas na irmandade. Aliás, um ponto fundamental é muitas vezes esquecido nessa discussão: a ausência de arrependimento das crenças e ações erradas que a CCB praticou, sustentou e proliferou num passado não tão distante. Nunca se formalizou sequer uma nota de remorso ou um pedido informal de desculpas pelos erros cometidos e pelo prejuízo espiritual, físico, psicológico, relacional e material gerado a tantas pessoas que assumiram posições equivocadas, foram julgadas pelas lideranças locais diante de diversas situações e creram em distorções das verdades bíblicas. Esses pontos apontam para a realidade de mudanças formais e não de uma conscientização crescente do desvio que a denominação sofreu durante sua história.
Contrariamente ao mencionado acima, há quem sustente, inclusive fora dos arraiais da CCB, que o simples fato de novos tópicos ou circulares estabelecerem posicionamentos distintos ou até opostos aos do passado, se configura como uma espécie de reconhecimento implícito dos erros anteriores, não necessitando de reparação alguma. A sensatez não marca essa opinião, pois, pelo menos duas questões se levantam contrariamente a essa compreensão: a primeira está relacionada aos assuntos abordados nesses posicionamentos. Posições sobre a Graça de Deus, Salvação, Batismo, Corpo de Cristo, Estudo Bíblico, Pecado de Morte, por exemplo, não podem ser alterados tão bruscamente em documentos oficiais atuais sem que sejam reconhecidos os desvios e até heresias produzidas antigamente nessas temáticas, até porque tais ideias foram registradas e propagadas como verdades transmitidas pela inspiração e guia do Espírito Santo e simplesmente moldaram a mentalidade dos adeptos durante décadas. Ou seria o Espírito Santo um deus de confusão? A segunda questão é o simples fato de que verdadeiros cristãos se arrependem de seus pecados, assim como estão dispostos a confessá-los e, portanto, toda mudança de direção é tomada após a conscientização dos direcionamentos tortuosos e indevidos do passado, o que também se espera de qualquer denominação religiosa dita cristã. Sem a admissão das falsas crenças e das atitudes excludentes e injustas que foram praticadas, nenhuma mudança atual está alinhada com o espírito cristão.
Outro argumento em favor da mudança por parte dos adeptos otimistas fundamenta-se sobre as iniciativas de estudos bíblicos que alguns poucos grupos desenvolvem clandestinamente. Ninguém que tenha bom senso pode negar que essas iniciativas seriam inaceitáveis há quinze anos atrás (ou menos) segundo a visão da denominação. Nem creio que devo desacreditar das boas intenções que algumas pessoas que realizam a promoção dessas práticas possuem. O grande problema é que essas ações são verdadeiras intrusas entre os costumes da CCB, já que não são viabilizadas e muito menos apoiadas pela instituição. Por outro lado, o ideal normalizado é que Deus não poderia, em regra, agir entre seu povo por meio do conhecimento advindo do estudo e ensino da Bíblia Sagrada realizados por homens, mas sim por constantes e obrigatórias intervenções divinas, por revelações e sentimentos/intuições espirituais (especialmente sobre os que possuem ministérios) para todos os direcionamentos, decisões e pregações que partem da CCB.
Visando transparecer uma imagem mais agradável publicamente, é possível que a CCB esteja tentando balancear seu tradicionalismo com o padrão do politicamente correto que também passou a enfrentar, principalmente a partir de sua exposição na internet. Não é de bom tom publicar posicionamentos oficiais exclusivistas e superficiais como se estabelecia de maneira tão direta no passado. Na dinâmica dos relacionamentos pessoais, porém, ainda me deparo com posturas e comportamentos que refletem um senso de superioridade espiritual e a atitude de distanciamento que a esmagadora maioria dos adeptos da CCB mantém em relação às demais denominações cristãs e seus membros. Isso ocorre porque a percepção de que são especiais e únicos na forma de crer e manifestar suas práticas religiosas não pode ser desfeita antes da libertação do enorme orgulho denominacional que há anos cultivam. Reconheço tudo isso por um simples motivo: fiz parte por quase trinta anos dessa denominação, de maneira que aprendi e repliquei esses comportamentos, ideias e ideais. Como reforço desse reconhecimento, ainda tenho familiares, parentes e colegas na CCB que sustentam essas mesmas posturas e opiniões, ainda que de maneira mais cautelosa e amena ultimamente.
Por isso, para a liderança da CCB, o principal objetivo com os tópicos e cartas circulares recentes é blindar a instituição para que as duras críticas realizadas não afetem mais a preciosa imagem da denominação, tanto para os de dentro, estancando a saída de pessoas, quanto para os de fora, desfazendo a acusação de que a denominação nada mais é que uma seita religiosa. A necessidade de responder e se posicionar diante das críticas é flagrante. O discurso que sustenta que o alvo é, antes de tudo, esclarecer a irmandade sobre determinados assuntos só convence os que desconhecem as principais críticas tecidas contra a CCB, pois são exatamente as temáticas dessas críticas que pautam direta ou indiretamente a produção de grande parte desses documentos oficiais. Inclusive, a grande maioria das pessoas da CCB, marcada pela ingenuidade, desinformação e/ou negligência, sequer se lembra do que se tratam esses tópicos, muito menos poderia sustentá-los como novos padrões de crença, em oposição ao que sempre creram e praticaram. Ademais, é muito triste ver que para a liderança da denominação é mais imprescindível tentar preservar imaculada a imagem institucional do que respeitar, cuidar, corrigir, pastorear e admoestar as pessoas que estão sob os seus cuidados.
Os três grupos mencionados no presente texto (liderança, otimistas e maioria) compõem uma designação genérica de pouco menos da totalidade do público da CCB, inseridos no complexo cenário que revela a crescente crise religiosa da denominação. Meu desejo sincero é que, antes mesmo de qualquer possível mudança institucional positiva, muitas vidas sejam alcançadas pelo verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo e realmente libertas de um sistema religioso que as mantém cativas a concepções pequenas e deturpadas sobre Deus e sua própria salvação. Muitos ali, hoje amarrados a ideais e realizações pequenas dentro de um cubículo religioso que é visto por esses como a totalidade da obra de Deus nesse mundo, ainda precisam comungar com uma parcela mais ampla do Corpo de Cristo, composto por aqueles que foram lavados e remidos pelo Sangue do Cordeiro. Minha oração é que as Escrituras Sagradas se tornem a verdadeira base de fé e conduta de muitos, de maneira que, pela ação sobrenatural do Santo Espírito, a verdadeira Luz ilumine os que participarão, já nessa vida, do Reino de Deus.
Vitor Feriani de Santana




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