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Apologética

  • Foto do escritor: Taline Chaves
    Taline Chaves
  • 23 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

Atualizado: há 7 dias

Nota do autor: este texto reflete meu percurso pessoal, minhas leituras e minha compreensão teológica à luz das Escrituras. Onde cito a Bíblia, submeto-me à sua autoridade final. Onde interpreto, aplico ou descrevo experiências e critérios teológicos, assumo tratar-se de minha leitura responsável, e não de uma posição infalível ou exaustiva sobre o tema. O convite aqui é ao exame honesto das Escrituras, com temor, humildade e zelo pela glória de Deus.


Eu tinha uma bronca dos críticos que apontavam e corrigiam o que era ensinado dentro da igreja. Eu pensava: "Por que eles precisam ficar apontando o erro do outro? Não é o diabo que atua como acusador?" Naquela fase da minha vida, qualquer atitude confrontadora me parecia falta de amor.

Com o tempo, porém, percebi que aquela raiva era fruto de um problema maior: a CCB tinha se tornado o meu deus. Na verdade, eu me confundia com a instituição, tinha virado minha identidade. Qualquer divergência me atingia como um ataque pessoal, e eu defendia não a verdade, mas o meu apego sentimental e identitário ao sistema. Mais ou menos como aquelas pessoas que tem político de estimação, sabe? Defendem eles como se estivessem defendendo a própria vida. 

Querendo desenvolver um casco mais grosso e argumentos melhores, continuei ouvindo os red pills (como eu chamada os críticos ácidos da CCB) e ouvi eles dizendo sobre essa tal de Apologética. Resolvi estudar um pouco mais sobre o tema, afinal, eu queria responder a altura. Bom, o fim de tudo isso você já deve ter percebido pelo tom da mensagem… Cá estou eu defendendo o que condenava. Aderi ao discurso dos red pills… Mas, por que? 

Primordialmente, eu precisei aprender o que era o Cristianismo e a sua história. E, nessa minha busca, aprendi que o Cristianismo não é uma lista de regras e tampouco se apoia em uma fé cega, irracional ou baseada em experiências privadas. Ele se fundamenta em evidências factuais, públicas e documentadas, especialmente na vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo; acontecimentos que ocorreram diante de testemunhas, foram registrados e transformaram o mundo de maneira verificável. Contudo, reconhecer esses fatos não são apenas um exercício intelectual. Como observa Alister McGrath, dialogando com John Macquarrie, a fé cristã não é mera crença proposicional, mas uma atitude existencial diante da realidade revelada por Deus, “que inclui aceitação e compromisso”. Assim, embora fundamentada em evidências históricas, a fé salvadora é concedida sobrenaturalmente pelo Espírito Santo, que ilumina o entendimento e conduz o coração à confiança em Cristo.

Do meu entendimento do Cristianismo o que me marcou e se tornou meu mapa teológico, foram as 5 solas da reforma protestante: Sola Scriptura (Somente a Escritura), Sola Fide (Somente a Fé), Sola Gratia (Somente a Graça), Solus Christus (Somente Cristo) e Soli Deo Gloria (Somente a Deus a Glória). Virou meu check list. Tudo o que eu lia e compreendia tinha que passar pelo crivo das 5 solas. Eu passei a ter um manual de vida, a Bíblia, e isso mudou absolutamente tudo. 

Consequentemente, aprendi que existe uma diferença abissal entre acusar e defender a verdade: A acusação que vem do inimigo é destrutiva, humilha, não chama ao arrependimento e só produz culpa. Já a defesa da verdade é, antes de tudo, um ato de amor e mais: é uma prescrição bíblica exercida pelos profetas, por Jesus e pelos apóstolos. Eles não ficaram calados diante do erro porque sabiam que erro sobre Deus não é uma questão secundária. Eles se iravam quando o Nome de Deus era deturpado. Não por serem duros, mas por zelo santo: amor suficiente para não permitir que o Nome do Senhor e seus ensinos, fossem tratados de maneira leviana: Isso é Apologética.

A palavra "apologética" vem do grego apologia (ἀπολογία), que significa "discurso de defesa", "justificação". Pense num advogado defendendo seu cliente no tribunal… É isso! No Novo Testamento, o termo aparece várias vezes (At 22.1; 25.16; 2Tm 4.16; 1Pe 3.15). O versículo mais conhecido é exatamente a ordem direta de Pedro:

"Antes, santifiquem a Cristo como Senhor em seu coração. Estejam sempre preparados para responder [apologia] a qualquer que lhes pedir a razão da esperança que há em vocês, fazendo-o, porém, com mansidão e reverência." (1Pedro 3:15-16)

James Sire descreve apologética cristã como “simplesmente a apresentação de uma defesa da verdade bíblica; destacadamente, a verdade central de Jesus Cristo como Filho de Deus e Salvador.” Acho essa definição ótima, pois é direta ao ponto e indiretamente convoca todos a fazê-lo.


Usando meu manual: A Bíblia


Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento vemos homens de Deus defendendo a verdade contra o erro e protegendo o povo de falsos mestres. Moisés combateu falsos profetas (Dt 13). Elias confrontou os profetas de Baal (1Rs 18). Jeremias se levantou contra os falsos sonhos e visões (Jr 23). No Novo Testamento vemos uma ênfase ainda maior e, curiosamente, quase toda ela é interna, ou seja, dirigida à própria igreja. A maioria das epístolas não foram escritas para vencer debates com ateus, mas para corrigir erros dentro da própria comunidade cristã. Isso demonstra que doenças doutrinárias surgem de dentro, por isso os red pills são necessários. Alias, esse é o tipo de apologética que tratarei nesse artigo. Veja o que Paulo alerta em Atos 20:29-31:

"Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes entrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho. E que dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade [...] Por isso, vigiem!"

Essa vigilância não é um chamado à paranóia, mas ao amor. Jesus chamou os fariseus de "sepulcros caiados" e "raça de víboras" (Mt 23), mas no mesmo capítulo chorou por Jerusalém. Paulo chamou falsos obreiros de "cães" e "maus operários" (Fp 3.2), mas escreveu a carta aos Filipenses cheio de alegria e lágrimas, isso demonstra amor. Confrontar o erro e amar as pessoas não são coisas opostas, andam juntas quando o alvo é a glória de Deus e o avanço do reino. Mas afinal, por que o cristão precisa defender a fé?

Porque este é o chamado da própria igreja. Paulo escreve a Timóteo:

"...para que saibas como se deve proceder na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, coluna e baluarte da verdade." (1Timóteo 3:15)

Se a igreja é coluna e baluarte (sustentáculo e proteção) da verdade, então a apologética é simplesmente a expressão prática desse chamado. Deus confiou à sua igreja o evangelho da salvação. Por isso Judas exorta:

"Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência a respeito da nossa comum salvação, senti a necessidade de escrever-vos exortando-vos a batalhar pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos." (Judas 3)

Por isso Paulo ordena a Timóteo que repreenda os que ensinam outra doutrina (1Tm 1.3) e a Tito que "tape a boca" dos que contradizem a sã doutrina (Tt 1.9-11). A defesa da fé não é opcional, é uma ordem. 


Mas afinal, devemos entrar em todas as discussões e chamar tudo de apologética?


Diante da multiplicidade de visões teológicas, se o cristão fosse chamado a responder a toda divergência, passaria a vida inteira discutindo. E a resposta bíblica é clara: não. A própria Escritura estabelece que existem fundamentos lançados “pelos apóstolos e profetas” que não podem ser adulterados (Ef 2:20). Esses fundamentos dizem respeito às doutrinas centrais da fé cristã, aquilo que, se corrompido, compromete o próprio evangelho.

Para facilitar, utilizo a sigla SBT (não, não é o Sistema Brasileiro de Televisão, rs), como um critério teológico e bíblico para discernir quando a apologética se faz necessária: Soteriologia, Bibliologia e Trindade, incluindo neste último a Teontologia (doutrina sobre Deus) e a Cristologia (doutrina sobre Cristo).

Aliás, esses temas foram objeto de grande ataque ao longo dos séculos e, justamente por isso, foram defendidos e deram origem aos quatro principais credos do Cristianismo histórico, que também são os que adotamos aqui em nosso site: Credo Apostólico, Credo Niceno, Credo de Atanásio e Credo de Calcedônia. Vale reforçar que o contexto que abordo aqui, é da apologética interna, ou seja, dentro da própria igreja.

A apologética glorifica a Deus porque combate tudo que obscurece a glória de Cristo. Quando a igreja tem boa teologia, ela se parece com Cristo. Quando adota doutrina falsa, vira caricatura de Cristo. A apologética protege a igreja, esclarece quem Cristo realmente é, o que Ele fez e por que isso importa. Ela mantém o evangelho puro para que Jesus continue no centro da igreja e Seu povo não seja enganado.

Se hoje você continua onde eu estive, se sente culpado ou com medo de "falar mal da igreja de alguém", ou de apontar um erro que foi dito, entenda: defender a verdade bíblica é um chamado para todo cristão, ou seja, você também! Quando o erro é público, o silêncio é cumplicidade. Então não tenha medo. Estude a Palavra, ore por sabedoria, humildade e mansidão, e fale sempre e quando necessário. Aliás, é para isso que nosso site existe! Reunimos aqui nossa experiência dentro de sistemas sectários com nosso aprendizado cristão, para documentar o que, baseado nas Escrituras, deve ser rechaçado e anatemizado.




Referências


  • BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução Almeida Revista e Atualizada (ARA).


  • BAUCHAM Jr., Voddie. Apologética Expositiva: Responder às Objeções do Século XXI com a Verdade das Escrituras. São José dos Campos: Fiel.


  • McGRATH, Alister E. Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica: Uma Introdução à Teologia Cristã. São Paulo: Vida Nova.


  • SIRE, James W. Breve Manual de Apologética Cristã. São Paulo: Vida Nova.



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