A CCB está Mudando? O que a visão sobre Deus, o Pecado e o Homem revela sobre a instituição
- Wesley Ayres

- há 3 dias
- 5 min de leitura
Atualizado: há 22 horas
O grande Êxodo
Sempre houve quem deixasse a Congregação Cristã no Brasil (CCB) ao longo de seus mais de cem anos de história. A novidade, porém, é o motivo: o que estamos vendo agora é um número cada vez maior de pessoas abandonando os bancos da igreja por despertarem para graves desvios doutrinários, apontados por muitos, inclusive, como heresias.
Além da quantidade expressiva de pessoas que estão abrindo os olhos para os problemas da instituição, a internet tornou-se um grande catalisador. Muitos têm usado as redes para relatar suas verdadeiras conversões ao Evangelho e expor os erros teológicos que vivenciaram lá dentro.
Diante dessa debandada e exposição, a CCB não poderia ficar inerte. Por isso, há quem defenda que a igreja está mudando, melhorando e, finalmente, caminhando na direção da ortodoxia cristã.
O objetivo deste artigo é verificar a validade dessa afirmação, analisando o cerne da teologia da CCB: como historicamente (e ainda hoje) a instituição enxerga Deus, o pecado e o homem. Mas, antes de entrarmos nessas questões, é preciso fazer um alerta.
A Teologia Invisível
Analisar as crenças da CCB é sempre uma tarefa complexa. Os poucos documentos oficiais aos quais o público tem acesso parecem ser ortodoxos, fazendo com que quem olha de fora tenha dificuldade de entender as críticas levantadas por esses que estão deixando a instituição e o que realmente a ela prega no dia a dia. Somado a isso, há o fato de que a CCB historicamente desencoraja, e até hostiliza, o estudo teológico.
Sem uma sistematização doutrinária clara, não existe um padrão entre os ministros. Cada pregador acaba desenvolvendo uma teologia própria, baseada quase inteiramente na tradição oral absorvida ao longo dos anos e em suas vivências pessoais. O resultado disso é uma colcha de retalhos doutrinária, com ênfases e ensinos variando drasticamente entre regiões, estados e até entre congregações de uma mesma cidade.
Todavia, tendo congregado nos bancos da CCB por 38 anos, sinto-me seguro em afirmar que, não importa a “comum” ou a cidade, os problemas estruturais que abordarei a seguir estão presentes em praticamente toda a instituição, em maior ou menor grau.
1. Um Deus Distorcido
A Bíblia revela um Deus Trino no qual as três pessoas são coiguais, coeternas e possuem atributos divinos plenos. O Espírito Santo nos é apresentado claramente como uma Pessoa e não como uma mera força cósmica. Sobre Jesus Cristo, as Escrituras ensinam que Ele é plenamente Deus e plenamente homem. É essa dupla natureza perfeita que O qualifica como o único e suficiente substituto no sacrifício da cruz, operando a salvação exclusivamente pela graça, mediante a fé.
Na contramão das Escrituras, a tradição oral da CCB sustenta uma visão perigosamente deficiente de Deus, especialmente no que diz respeito à segunda e à terceira pessoa da Trindade. A divindade plena de Jesus raramente é ensinada com a clareza necessária, resultando em uma ignorância generalizada sobre a união hipostática. Quando a igreja não entende quem é Jesus em Sua essência divina e humana, ela falha de forma desastrosa em explicar como funciona a justificação. O resultado inevitável desse vácuo é a queda no legalismo e na salvação por obras.
Além disso, há uma generalizada falta de compreensão de que o Espírito Santo é uma pessoa da Trindade. Na prática litúrgica, Ele é tratado quase como uma energia, um transe místico, uma "virtude" ou um guia impessoal que serve basicamente para ditar reações emocionais e pregações improvisadas.
2. A Banalização do Pecado
A teologia bíblica define o pecado não apenas como uma "ação ruim", mas como uma condição inerente à natureza humana caída; é uma rebelião e uma ofensa direta contra um Deus de santidade infinita. Como Deus é infinito, qualquer pecado, desde o menor pensamento de orgulho até o mais grave assassinato, possui uma gravidade eterna e gera a separação total dEle. A Bíblia é clara: todos pecaram e carecem da glória de Deus (Romanos 3:23), sendo impossível ao homem resolver esse abismo por si mesmo (João 6:44).
A CCB, por outro lado, demonstra não compreender a verdadeira gravidade e natureza do pecado, adotando uma postura essencialmente moralista e superficial. Ali, o pecado é frequentemente reduzido a transgressões externas, com um foco quase obsessivo em pecados de natureza sexual ou em infrações contra as regras visíveis da igreja (como o uso de roupas consideradas "mundanas").
Enquanto isso, pecados do coração — como o orgulho espiritual, a avareza, a fofoca e, ironicamente, a própria idolatria à placa da igreja, são sistematicamente ignorados ou minimizados ao serem chamados de meros “erros” ou “falhas”. Ao não entenderem que até mesmo a menor das falhas condena o homem diante de um Deus perfeitamente santo, cria-se a perigosa ilusão de que um membro pode manter-se "limpo" e digno do céu apenas evitando escândalos morais públicos.
3. O Mito da Bondade Humana e a Salvação por Mérito
A antropologia bíblica nos ensina que o homem, embora criado à imagem de Deus, encontra-se em um estado de depravação total devido à Queda. Isso significa que nenhuma área do ser humano escapou da mancha do pecado. O homem natural está "morto em delitos e pecados" (Efésios 2:1) e é absolutamente incapaz de alcançar a salvação por ser "uma boa pessoa" ou por seus próprios méritos (Efésios 2:8-9). A salvação só é possível de fora para dentro, através da justiça de Cristo imputada a nós.
Em um contraste drástico, a CCB sustenta uma visão excessivamente otimista e antibíblica sobre a capacidade humana. É comum ouvir nos púlpitos a ideia de que é possível alcançar a salvação simplesmente "sendo firme e fiel" ou sendo obediente a Deus. Eu já ouvi muitas pregações na CCB que diziam que no último dia todos serão julgados pelas suas obras, que se fossem boas seriam salvos. Esse raciocínio abre margem para a heresia de que até mesmo pessoas que nunca ouviram o Evangelho ou creram em Cristo poderiam ser salvas apenas pelo bom comportamento, esvaziando completamente o propósito da cruz.
Existe mudança de fato?
Apesar de existirem dentro da CCB pessoas sinceras, bem-intencionadas e até interessadas em promover reformas, ao analisarmos a instituição de forma fria, não é possível constatar mudanças significativas em direção à ortodoxia bíblica. O que observamos é, na verdade, respostas às críticas externas e não, como muitos pensam, um crescimento gradativo em direção ao estudo teológico ou ao amadurecimento da fé. É muito mais uma tentativa tímida e ineficiente para se livrar da alcunha de seita, um esforço incipiente para demonstrar alguma ortodoxia.
Recentemente, ocorreu em minha cidade um evento em uma congregação da CCB, possivelmente um culto ou reunião, no qual fiéis e “testemunhados'’ puderam dirigir perguntas ao ancião. Quem me relatou o fato demonstrava entusiasmo, acreditando em uma abertura institucional, especialmente pelo fato de o ancião ter admitido que a salvação não é exclusividade da denominação. Contudo, tais iniciativas, embora positivas, não enfrentam o problema de forma incisiva. Reuniões esporádicas e circulares ambíguas possuem pouco efeito prático enquanto as pregações, recebidas como a voz direta de Deus, continuam a ecoar nos ouvidos dos fiéis, perpetuando os mesmos desvios doutrinários que há décadas moldam o pensamento da instituição.
Enquanto os líderes não reconhecerem o quão distantes estão das Escrituras e não tiverem a humildade e a coragem de confrontar aberta, abundante e inequivocamente os erros doutrinários ensinados historicamente, qualquer "mudança" será ilusória. Os recentes movimentos da CCB são apenas cosméticos, meras adequações sociais ou então apenas para simular alguma mudança. No cerne de suas doutrinas e pregações, a instituição continua operando com as marcas de uma seita, propagando o mesmo evangelho distorcido e exclusivista de sempre.
A igreja falha nos pilares mais rudimentares da fé cristã: possui uma visão de Deus deficiente; uma visão minimizada do pecado; e uma visão ilusória do homem, ensinando que a bondade humana ou a participação na sua membresia são os motores da salvação. Mudar o exterior é fácil; difícil é abandonar um sistema de orgulho e render-se à verdadeira Graça.




Comentários