O medo do fim - Por que o Apocalipse aterroriza os fiéis da CCB?
- Felipe Motollo

- há 14 horas
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O retorno de Jesus nunca foi o assunto preferido nas rodas de conversa de familiares e amigos. Este era um tema que gerava receio, medo e ansiedade até mesmo nos corações mais orgulhosos.
Me lembro, nos cultos da CCB, dos momentos inusitados quando era anunciada a pregação em Apocalipse. O olhar arregalado de todos e a risadinha sem graça, como quem temia o que estava por vir. Palavra em Apocalipse, para nós, significava a ameaça de ir ao tormento eterno, pois tínhamos a intuição de que havia algo que poderia impedir nossa entrada no céu, e de fato havia: o pecado. Era como se o reloginho do tempo estivesse rodando e o prazo cada dia mais apertado para resolver nossas pendências diante de Deus. E a vinda de Jesus era a abordagem adotada para gerar senso de urgência, pois a qualquer momento a oportunidade de se apresentar em santidade diante de Deus poderia ter chegado ao fim, bastava a trombeta soar e o tempo havia acabado.
As pregações de santidade sempre foram ameaçadoras:
"Seja santo enquanto há tempo, e lembre-se de que ninguém tem a salvação garantida" - diziam os pregadores.
A ameaça é dupla, pois havia palavras para os que se sentem despreparados para o fim e também ameaças para os que se sentem seguros, em pregações como:
"Cuidado se você acha que já está salvo, muitos pensavam assim e já não estão mais no nosso meio, caíram da graça".
Para quem não conhece a denominação, a expressão "cair da graça" é usada para se referir a quem não frequenta mais os cultos, pois isso é tido por eles como apostasia da fé.
Era difícil falar sobre a volta de Jesus neste contexto, pois o incômodo era evidente. Após entender o Evangelho, meu desejo latente pela volta de Jesus me levou a falar sobre o tema com parentes, e a reação não poderia ser pior. Em uma ocasião, ao mencionar o evento mais desejado pelo cristão a uma mulher grávida, logo veio a resposta de quem estava ao lado "pare, Felipe, não é momento para esses assuntos, ela está grávida, pode afetar a gravidez", parafraseando o que ouvi nesse momento tragicômico.
Esse medo é natural para quem entende que a salvação depende de suas obras e performance, pois quem poderia se sentir confortável com o retorno de Jesus para julgar as nações desconfiando, no fundo de seu coração caído, que suas obras jamais seriam suficientes para garantir a salvação?
O hino 390 do hinário 5 pode demonstrar um pouco do olhar que este movimento busca construir em relação ao tema. Veja como é impactante ler o verso abaixo e o coro deste hino para quem está inserido no contexto explicado anteriormente:
“Nesse dia glorioso, que se encontra já bem perto,
Quem, de pé, perante Cristo, poderá permanecer?
Só os justos e fiéis a Deus, que guardaram o Concerto,
Subirão a eterna glória para o reino receber.
coro: Eis que vem o Verdadeiro,
O Juiz e Conselheiro:
Julgará o mundo Inteiro
Com justiça_e retidão.”
A cosmovisão construída na denominação é de que, após o batismo, você passa a ter uma segunda chance para alcançar a vida eterna. É normal ouvir histórias de sonhos e revelações sobre um encontro com um anjo que traz em suas mãos uma balança, e as obras boas e más são pesadas para ver o saldo.
A complicação se torna ainda maior quando se percebe que o conceito de obras é extremamente legalista, baseado em código de vestimentas, frequência nos cultos, participar da ceia anual e se guardar dos temidos "pecados de morte", que se resumem à imoralidade sexual e atos de idolatria como celebrar o Natal.
Por exemplo, para um casal de namorados que exagera nos beijos e carinhos em seu relacionamento, até onde podem chegar sem cometer o pecado de morte? Conheci dois tipos de jovens, aqueles que consideravam qualquer exagero como pecado e, portanto, ao menor deslize sentiam o peso da culpa e a suposta rejeição de Deus. Já outros, viviam um namoro completamente inadequado e exagerado, mas não se importavam, pois seria pecado para eles apenas se chegassem "aos finalmentes".
Diante de tantas incertezas e dessa visão legalista sobre o relacionamento com Deus, é normal viver uma verdadeira "montanha russa espiritual". Em certos momentos o sentimento se assemelha à força de uma rocha inabalável, porém, não demora muito para que algum deslize coloque em xeque a aprovação de Deus, e então a rocha é substituída por uma avalanche de angústia, fraqueza e até desespero.
Não é raro ouvir frases que demonstrem essa insegurança dentro da denominação. Basta perguntar sobre a salvação a qualquer um, e logo vêm respostas como:
"A salvação não está garantida, mas espero permanecer firme e fiel para entrar no céu."
A crucificação de Jesus, para alguém da CCB, aconteceu para que o perdão ocorra nas águas do batismo. Após o batismo você passa a lutar para não perder a sua salvação, que se concretizará apenas na eternidade. E para isso é necessário frequentar os cultos regularmente, ouvir as pregações reveladas, que inclusive têm poder de perdoar os mais graves erros, e por fim jamais "cair da graça".
Qualquer cristão minimamente instruído pode notar que tais conceitos são aberrações teológicas e não condizem com o Evangelho apresentado por Jesus e seus apóstolos.
Em Efésios 2:8-10, nota-se claramente que a salvação não pode ser adquirida por obras, e ocorre mediante a fé em Jesus. Em outro momento, o apóstolo João é claro quando diz:
Se afirmamos que não temos pecados, enganamos a nós mesmos e não vivemos na verdade. (1 João 1:8)
A Bíblia não deixa dúvidas sobre o tema do Evangelho, e reforça que o mérito da salvação é apenas de Cristo. Ele morreu na cruz para pagar a conta impagável e resgatar pecadores. A realidade do pecado ainda está presente tanto na vida de incrédulos quanto na vida de cristãos. A diferença é que o segundo grupo luta diariamente contra o pecado, se arrependendo e buscando uma vida de constante santificação. O cristão não deixa de pecar, mas não vive mais para pecar e não tem prazer naquilo que ofende a Deus. Porém, se a salvação dependesse de nosso esforço pessoal, nenhum homem alcançaria tal feito. O único homem perfeito e santo deu a SUA vida em uma cruz para que seu povo, o povo da fé, fosse eternamente salvo e guardado para a eternidade.
Sim, eternidade, uma era futura de relacionamento eterno e profundo com Deus, a plenitude dos tempos. Esse momento, de redenção completa da criação, ocorrerá apenas quando nosso rei voltar, Jesus de Nazaré. A volta de Jesus não é um evento que causa medo ou angústia, mas é o que alimenta nossa esperança. Esse mundo caído não é nossa morada final, é um estado intermediário. O cristão almeja a volta de seu messias, e, consequentemente, a plenitude do reino de Deus.
Já sentimos o sabor dessa glória, ainda que uma pequena amostra, suficiente para encher o coração de esperança e paz. Nosso rei virá, e fará novas todas as coisas, dando redenção aos que verdadeiramente creram Nele.
“Aquele que testifica estas coisas diz: Certamente cedo venho. Amém. Ora vem, Senhor Jesus” (Apocalipse 22:20).




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