Não me ensinaram a orar na CCB!
- Eduardo Vasco

- 2 de dez. de 2025
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É inevitável: algumas experiências nos marcam profundamente e redefinem a nossa fé. Uma das mais impactantes para mim foi a primeira vez que entrei em uma igreja de tradição bíblica depois de anos e anos de vivência na Congregação Cristã no Brasil (CCB). Não foi a música, nem a arquitetura, mas a oração.
Na CCB, a oração é revestida de uma formalidade quase pétrea. Cresci imerso em um ambiente onde o ato de orar se tornou um ritual meticuloso, tanto na esfera pública quanto na privada. Desde a infância, fui treinado a reproduzir as frases e o vocabulário "consagrado" que ouvimos. O objetivo parecia ser encontrar as palavras mais rebuscadas, enfeitadas e solenes, em uma tentativa de impressionar a Deus (ou quem estivesse ouvindo). O Senhor Jesus alertou contra essa postura: “Ora, quando orardes, não sejais como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a sua recompensa.” [Mateus 6.5]. É uma pena que o CCBeano só consiga extrair desse texto uma suposta proibição de se orar em pé, distorcendo totalmente o contexto e tirando o foco da verdadeira intenção do nosso Senhor: combater a hipocrisia.
A oração, na perspectiva CCBeana, se transformou em uma performance que estabelece barreiras desnecessárias entre o crente e Deus. Lembro-me claramente dos ritos pré-oração que eram impostos mesmo no recôndito do lar. Se uma mulher estivesse de calça não bastava cobrir o corpo, tinha que buscar um vestido ou saia e, invariavelmente, colocar o véu. Se um homem estivesse de bermuda em casa, precisava ir colocar calça. Isso não é reverência, é legalismo. É a crença sutil e perigosa de que a eficácia da oração depende de uma condição externa, de uma vestimenta, e não da humildade do coração. A reverência verdadeira reside no espírito, não no tecido ou no protocolo humano.
Em público, nos templos ou nos “movimentos de oração” em lares de membros, este espírito de performance é ainda mais evidente. O cacoete se manifesta na repetição de clichês e de uma linguagem quase arcaica: "Ó, Soberano e Eterno Deus, Digno de toda honra", "visita esse lugar com o Teu Imenso Poder e nos permita usufruir de uma faísca da Tua glória", "desce com Tua forte mão". O resultado é uma oração 100% formalidade, 0% intimidade. É uma eloquente repetição de fórmulas, vazia da sinceridade de quem conversa com o Pai. Jesus nos ensinou a evitar as "vãs repetições" (Mateus 6.7). Ele não condenou a repetição em si (veja o próprio exemplo no Getsêmani), mas a oração mecânica e vazia, típica de quem busca a bênção pelo cansaço da boca, e não pela fé do coração.
Aqui, na Primeira Igreja Batista em Assis/SP, onde hoje sou seminarista, eu realmente comecei a aprender o que significa orar. Quando cheguei pela primeira vez para visitar, era um culto de oração. Eu estava acostumado a ter um vocabulário quase erudito nas minhas orações. Ainda mais em público, quando orava, honestamente, com a intenção de arrancar “reações de glória da igreja”, buscando o reconhecimento das minhas palavras e o impacto do meu tom. Porém, naquele dia, me lembro de ver um senhorzinho de idade orando. O pastor pediu para que alguém conduzisse a igreja para orar naquele momento. Em menos de três segundos ele se levantou e atendeu ao pedido do ministro. O português dele era limitado, a sintaxe, simples, e a oração, direta, sem rodeios. Mas a intimidade com a qual Ele chamava Deus de "Papai" era tão natural, tão terna, tão nada forçada, que fui atingido por uma convicção fortíssima: eu nunca tinha aprendido a orar de fato. Todo o meu vasto vocabulário não tinha valor algum comparado com a beleza e naturalidade daquela conversa íntima. Eu entendi que, como disse Matthew Henry em um de seus comentários bíblicos: “A oração é levantar a alma a Deus, mais do que mover a língua.” De fato, a verdadeira oração é aquela que despeja o coração, e não a que enche o ar de frases feitas.
Outra diferença impactante é a forma como o pedido de oração é tratado. Na instituição das paredes cinzas, criou-se um costume adquirido de protocolar o pedido. Se você pede oração a alguém, a resposta padrão é: “será apresentado” ou “será orado”, deixando implícito que o pedido será levado a Deus em um momento posterior. Ocorre que, na esmagadora maioria das vezes, ninguém se lembra de orar. O pedido é arquivado no esquecimento.
Isso contrasta radicalmente com a prática da igreja bíblica, que reflete a simplicidade e a urgência do Evangelho. Quando alguém manifesta uma necessidade ou um pedido de oração, a reação não é o protocolo burocrático, mas a ação imediata. Ali mesmo, sem formalidades, a oração é feita. Tiago nos ensina: “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes orem sobre ele.” (Tiago 5.14). O chamado é à ação imediata, não ao arquivamento. A oração bíblica é a manifestação da comunhão e do socorro mútuo no mesmo instante em que a necessidade é manifestada.
A diferença reside na compreensão do Evangelho. Nas igrejas comprometidas com a Palavra, entendemos que o véu do Templo se rasgou de alto a baixo [Mateus 27.51]. A cruz de Cristo abriu um acesso direto e desimpedido ao Santo dos Santos. Não precisamos de mediadores humanos, nem de ritos ou vestimentas especiais para falar com Deus, pois já fomos aceitos no Amado. A oração é, antes de tudo, intimidade de filho. Romanos 8.15 e Gálatas 4.6 nos ensinam que o Espírito nos faz clamar: “Abba, Pai!”. Abba é um termo aramaico de profunda intimidade e carinho, equivalente ao nosso "Papai". Como podemos usar a linguagem de um súdito em um tribunal quando temos a permissão de usar a linguagem de um filho no colo? A Bíblia nos instrui a ir ao nosso "quarto" (lugar secreto, nosso interior) para orar e falar com o Pai "em secreto" [Mateus 6.6]. O foco não está na audibilidade ou na performance, mas na transparência e sinceridade. A oração bíblica é a conversa de um filho que, sabendo-se amado e aceito em Cristo, despeja a sua alma diante do Pai (e não diante da congregação).
Se faz necessário lembrarmos que o fator que torna a oração eficaz não são as palavras rebuscadas, mas a fé. A oração do justo é eficaz, mas o "justo" é aquele que foi justificado pela fé em Jesus [Romanos 3.28], e que vive em santidade, não aquele que domina o vocabulário e a etiqueta religiosa.
Além disso, o verdadeiro obstáculo para a oração é o pecado, não o vestuário. O Salmo 66.18 nos lembra: “Se eu acalentasse a iniquidade no meu coração, o Senhor não me ouviria”. A barreira na oração não é a falta de um véu ou de uma vestimenta específica, mas sim o pecado não confessado. Repito: o que é realmente necessário é a fé.
Concluo dizendo que a transição de uma oração performática para uma oração de intimidade é um verdadeiro evangelho sem muros. É a alegria de descobrir que Deus não exige um protocolo burocrático e legalista, mas um coração quebrantado e um diálogo sincero, acessível a qualquer um, em qualquer lugar, a qualquer momento, pelo sangue de Cristo.




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