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Letra ou Espírito? A distorção que afasta a CCB da Bíblia

  • Foto do escritor: Wesley Ayres
    Wesley Ayres
  • há 15 horas
  • 7 min de leitura

É evidente que existe um esforço de alguns membros da instituição em demonstrar que o exame das Escrituras é algo importante e necessário. Isso pode ser comprovado até mesmo em algumas manifestações recentes da liderança da CCB, em especial em uma circular publicada no dia 7 de maio de 2025 com o título “O dever de examinar a Escritura Sagrada”, que pode ser encontrada no site da CCB. Porém, qualquer pessoa que tenha passado tempo suficiente nas fileiras da CCB sabe que existe a CCB dos documentos e a CCB da vida real. Como uma simples carta circular lida uma única vez pode vencer décadas de pregações contrárias ao estudo bíblico? Como deixar para trás o ensino inculcado como uma goteira persistente que “a letra mata, mas o Espírito vivifica”?


“Em nome de Cristo Jesus: estudo bíblico, cessa, para!” Essa frase, proferida por um ancião da Congregação Cristã no Brasil (CCB) durante um culto, não é um caso isolado. Na internet, é comum encontrar registros de lideranças da instituição ordenando: “Deleta esse espírito de estudar a Bíblia” ou alegando que fiéis estão “deixando o pão [a CCB] para ir atrás de farelo [o estudo bíblico]”.


Essa dicotomia distorcida entre “a letra e o espírito”, sistematicamente incutida nos fiéis, produz dois erros devastadores. O primeiro é a crença de que a leitura individual das Escrituras é desnecessária; essa é a crença da CCB da vida real. O segundo é a ideia de que a Bíblia deve ser lida sem qualquer auxílio teológico ou histórico; esse é o ensino da CCB dos documentos. Este artigo trata do primeiro problema. O segundo será tratado em um artigo posterior.


Por que preciso ler a Bíblia?

Para os cristãos, a Bíblia é a única regra infalível de fé e prática, inspirada por Deus. A Confissão de Fé Batista de 1689, em seu primeiro parágrafo do primeiro capítulo, inicia com a seguinte afirmação:

“A Sagrada Escritura é a única regra suficiente, certa e infalível de conhecimento para a salvação, de fé e de obediência.”

Os Pontos de Doutrina da CCB trazem um texto igualmente forte. Apesar de certas controvérsias devido a alterações textuais realizadas em anos recentes, o documento defende a importância das Escrituras da seguinte maneira:

“Nós cremos na inteira Bíblia Sagrada e aceitamo-La como contendo a infalível Palavra de Deus, inspirada pelo Espírito Santo. A Palavra de Deus é a única e perfeita guia da nossa fé e conduta, e a Ela nada se pode acrescentar ou d'Ela diminuir. É, também, o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê.”

Mesmo diante de declarações tão claras, não é difícil encontrar entre a membresia e até mesmo no corpo ministerial da instituição quem afirme que a leitura frequente das Escrituras é desnecessária. Há quem sustente, inclusive, que o ideal é não ler a Bíblia. Em minha experiência, é muito mais comum encontrar fiéis que negligenciam a leitura individual do que aqueles que a praticam rotineiramente. Com esse cenário em mente, pretendo defender os seguintes pontos:


  1. A única maneira possível de conhecer a Deus é através da Bíblia.

  2. Deus ordenou, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, que conhecêssemos as Escrituras.

  3. A leitura bíblica é um meio indispensável de santificação e nutrição espiritual.

  4. O conhecimento profundo das Escrituras é a nossa proteção contra erros e heresias.


1. O Deus que se revelou


“Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.” – João 1:18

O ser humano, por ser uma criatura finita e afetada pelo pecado, é incapaz de alcançar o Criador por seus próprios esforços intelectuais ou experiências emocionais. Existe uma distância intransponível entre a mente humana e a natureza de Deus que só pode ser vencida se o próprio Deus decidir se comunicar. Embora a criação e a consciência manifestem a existência de um Designer Divino, esse conhecimento é geral e insuficiente para uma comunhão real ou para a compreensão do plano da salvação.


A Escritura afirma em Hebreus 1:1-2 que “Deus, tendo falado outrora de muitas maneiras aos pais pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho”. Esse "falar" de Deus não é uma sensação vaga ou um sussurro místico individual, mas uma revelação objetiva preservada nas Sagradas Escrituras. Como ensina 1 Coríntios 2:11, “ninguém conhece as coisas de Deus senão o Espírito de Deus”. Portanto, o conhecimento que temos do Pai é mediado exclusivamente pela Palavra que o Espírito inspirou. Fora da Bíblia, o que o homem possui são apenas suposições e ídolos criados à sua própria semelhança. Rejeitar o estudo constante da Bíblia é, na prática, rejeitar a única voz autoritativa que Deus deixou para que pudéssemos conhecê-Lo verdadeiramente.


2. Conhecer a Bíblia não é opcional


“E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te. Também as atarás por sinal na tua mão, e te serão por frontais entre os teus olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa, e nas tuas portas.” – Deuteronômio 6:6-9

O estudo bíblico não é um passatempo para intelectuais ou uma atividade reservada a especialistas, mas uma ordem direta de Deus para todo o Seu povo. Tanto na Antiga quanto na Nova Aliança, a negligência no conhecimento da Palavra é tratada como uma falha grave de obediência. No Antigo Testamento, a ordem dada a Josué era clara: o livro da Lei não deveria se apartar de sua boca e ele deveria meditar nele dia e noite. Em Deuteronômio 6, a instrução para os pais era que ensinassem diligentemente os preceitos de Deus aos seus filhos. Isso pressupõe um conhecimento profundo, constante e metódico do texto sagrado, algo que vai muito além de apenas ouvir trechos aleatórios durante um culto.


No Novo Testamento, essa exigência permanece e se intensifica. Paulo instrui Timóteo a procurar apresentar-se a Deus como um obreiro aprovado que maneja bem a palavra da verdade. Manejar bem uma ferramenta exige prática, esforço e dedicação. Além disso, o exemplo dos cristãos de Bereia, registrados em Atos 17:11, serve como um padrão de conduta para a igreja. Eles foram chamados de nobres justamente porque examinavam as Escrituras todos os dias para conferir se o que o próprio apóstolo Paulo pregava estava de acordo com a verdade. Se até o ensino de um apóstolo precisava passar pelo crivo do exame bíblico diário realizado pelos fiéis, é um erro perigoso desencorajar a irmandade de fazer o mesmo hoje. O mandamento de Deus é que o cristão seja um estudante dedicado da Sua vontade revelada, e não um analfabeto bíblico dependente apenas de revelações momentâneas de terceiros.


3. Santificação e nutrição espiritual


“Ele, porém, respondendo, disse: Está escrito: Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.” – Mateus 4:4

A leitura das Escrituras não é um exercício puramente intelectual que esfria a fé, mas o combustível essencial para uma vida devocional fervorosa e santa. Jesus, em sua oração sacerdotal registrada em João 17:17, foi categórico ao dizer: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade”. Não existe santificação real à margem da verdade revelada. O Espírito Santo utiliza os preceitos, promessas e advertências contidos na Bíblia para moldar o caráter do crente e purificar sua conduta. Sem o contato constante com o texto sagrado, a consciência perde sua bússola moral e o coração torna-se vulnerável aos próprios impulsos e inclinações pecaminosas.


Além de instrumento de santidade, a Bíblia é apresentada como o alimento indispensável para a alma. O apóstolo Pedro exorta os cristãos a desejarem o genuíno leite espiritual para que, por meio dele, tenham crescimento para a salvação. Um cristão que negligencia a leitura da Bíblia assemelha-se a uma criança que se recusa a comer: ele permanecerá espiritualmente raquítico, frágil e incapaz de amadurecer. A nutrição espiritual não ocorre por osmose ou exclusivamente em momentos de êxtase coletivo durante um culto. Ela depende do exercício individual e diário de meditar na Palavra de Deus. Ignorar as Escrituras é, portanto, escolher a inanição espiritual diante de um banquete generosamente oferecido pelo Criador.


4. Pão ou farelo: Porque o estudo da Bíblia protege contra heresias e erros


“Jesus, porém, respondendo, disse-lhes: Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus.” – Mateus 22:29

O conhecimento bíblico é a única salvaguarda contra o engano religioso e a proliferação de doutrinas estranhas ao Evangelho. Sem uma base sólida nas Escrituras, a fé cristã torna-se vulnerável a ventos de doutrina e à manipulação emocional. O perigo mais traiçoeiro nesse contexto é a exaltação do “sentir” acima do “está escrito”. Quando uma comunidade religiosa desestimula o estudo teológico, ela acaba por elevar as intuições, os sonhos e as supostas revelações individuais ao mesmo nível da autoridade bíblica. No entanto, a Bíblia é enfática ao alertar que o coração é enganoso acima de todas as coisas. Confiar no que se sente no momento do culto, sem o crivo da Palavra, é caminhar em um terreno de areia movediça onde qualquer heresia pode ser aceita como verdade se vier acompanhada de uma forte carga emocional.


Jesus confrontou os religiosos de sua época com uma afirmação que ecoa até os dias de hoje: “Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus”. Note que o erro é apresentado como uma consequência direta da ignorância bíblica. O apóstolo Paulo também exorta a igreja em Efésios para que os fiéis não sejam mais como meninos, agitados de um lado para outro por qualquer novidade doutrinária. O estudo sistemático da Bíblia fornece ao cristão o discernimento necessário para identificar o que provém de Deus e o que é meramente invenção humana ou misticismo subjetivo. Em última análise, a Bíblia é o tribunal supremo onde toda experiência, pregação ou profecia deve ser julgada. Quem se recusa a estudar a Palavra abre mão de sua principal defesa e entrega-se voluntariamente à confusão e ao erro.


Conclusão

“Achando-se as tuas palavras, logo as comi, e a tua palavra foi para mim o gozo e alegria do meu coração; porque pelo teu nome sou chamado, ó Senhor Deus dos Exércitos.” – Jeremias 15:16

A negligência do estudo bíblico sob o pretexto de uma suposta espiritualidade superior é um erro que compromete a própria essência da vida cristã. O exame das Escrituras não é uma sugestão para os curiosos, mas um dever imposto pelo próprio Deus para que o ser humano possa conhecê-Lo, obedecê-Lo e ser santificado por Sua verdade. Quando uma instituição desencoraja seus fiéis de manejarem a Palavra de forma diligente, ela os despoja da única armadura capaz de protegê-los contra as sutilezas do engano e a instabilidade dos sentimentos humanos.


O verdadeiro pão que sustenta a alma é a revelação divina registrada nas Escrituras. Qualquer sistema que tente substituir esse alimento por intuições subjetivas ou tradições humanas está, na verdade, oferecendo farelo no lugar de sustento real. O cristão zeloso deve rejeitar o medo infundado da teologia e abraçar a nobreza dos bereanos, buscando na Bíblia a régua única e infalível para toda a sua vida.

 
 
 

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