top of page

O Evangelho do Reino

  • Foto do escritor: Felipe Motollo
    Felipe Motollo
  • há 17 horas
  • 5 min de leitura

De acordo com a editora Hagnos, o autor George Eldon Ladd foi ministro da tradição batista, ordenado em 1933, e professor de exegese e teologia no Fuller Theological Seminary, em Pasadena, Califórnia, reconhecido como especialista em Novo Testamento e escatologia cristã. Ele chegou a estudar na Harvard University, onde concluiu uma dissertação de doutorado sobre escatologia. Ladd foi uma figura importante para o direcionamento do seminário Fuller.


A obra em questão, O Evangelho do Reino: Estudos Bíblicos Sobre o Reino de Deus, apresenta qualidades inquestionáveis, na medida em que realiza um trabalho equilibrado na tentativa de conciliar uma análise teológica e acadêmica sobre o conceito de Reino de Deus conforme expresso nas Escrituras com reflexões devocionais sobre o tema e suas implicações em termos de fé e prática cristã.


Ladd inicia seu livro descrevendo o que é o Reino de Deus na visão bíblica, principalmente neotestamentária, e o faz abarcando reflexões propostas por filósofos e pensadores como o poeta grego Hesíodo e o filósofo Platão sobre a expectativa por uma sociedade ideal. Contudo, rapidamente o autor se volta para uma esperança muito superior a uma mera evolução social, abordando profecias escatológicas do Antigo Testamento e as falas de Jesus sobre a manifestação do Reino de Deus, que, de acordo com o autor (p. 14), trata-se de uma “esperança religiosa” e “um elemento essencial na vontade revelada e na obra redentora do Deus vivo”. Ladd enriquece a análise ao trazer perspectivas de autores relevantes sobre o conceito de Reino de Deus, como Adolf von Harnack, C. H. Dodd e Albert Schweitzer, demonstrando que descrever o que é o Reino de Deus não é tarefa simples e deve ser feito de forma muito mais profunda do que uma mera definição de dicionário.


Ainda durante o primeiro capítulo, Ladd apresenta um fato tríplice: (i) as Escrituras abordam o Reino de Deus como um reinado ou governo; (ii) referem-se ao Reino de Deus como algo que pode ser experimentado no presente; e (iii) apontam para uma realidade futura que poderá ser experimentada de forma plena apenas com a volta do Senhor Jesus Cristo. Tais afirmações tornam-se fundamentais para conduzir o leitor aos desafios dos capítulos seguintes, tendo em vista que nos dois capítulos subsequentes o autor assume a missão de refletir sobre os aspectos futuros do Reino (capítulo 2) e os aspectos presentes do Reino (capítulo 3).


Nos capítulos 2 e 3, o autor desenvolve reflexões e provocações profundas sobre a presença do Reino de Deus em meio a uma era ainda governada por Satanás e sobre a esperança de uma era vindoura na qual a plenitude desse Reino se manifestará com o retorno glorioso do Senhor Jesus.

Por outro lado, aqui cabe um ponto de atenção, ainda que feito de forma bastante humilde por quem escreve este relatório, considerando a distância acadêmica e experiencial entre o leitor que redige este texto e o autor da obra.


Durante a leitura, é inevitável notar momentos em que o coração se inflama com a esperança de um futuro em que a plenitude do Reino virá como um evento glorioso, ainda que tal glória já possa ser experimentada por aqueles que são alcançados pela fé em Jesus. Contudo, o ponto de atenção mencionado refere-se à aparente quebra de expectativa quando o autor introduz o conceito do milênio.


Isso ocorre porque, até certo ponto, Ladd conduz o leitor a compreender que a volta de Cristo trará a plenitude final do Reino, resolvendo assim o problema que ele descreve como “dualismo ético”, resultante do fato de que Satanás ainda reina no presente século.


Entretanto, a introdução de um período milenar com Cristo, no qual a propensão ao pecado ainda existirá, pode trazer certo desconforto ao leitor no capítulo dois. Esse desconforto se torna mais suave no capítulo três, quando o autor parece trazer maior harmonia ao conceito, tratando o tema do milênio de forma mais consistente.


Ainda que o período milenar, sob a ótica pré-milenista histórica adotada por Ladd, torne a narrativa mais complexa, o autor expõe um conceito interessante de sobreposição entre esta era e a era vindoura.


Em certos momentos, é possível sentir o sabor da glória de Deus em meio ao caos do presente século, devido à forma como Ladd escreve em momentos de tom mais devocional. Um exemplo disso aparece quando o autor afirma (p. 43): “Podemos provar os poderes da era por vir e, assim, ser libertados desta era e não mais viver em conformidade com ela”.


Esse tom pastoral permeia o livro de forma suave, trazendo consolo ao cristão e, ao mesmo tempo, colocando sobre o povo de Deus a responsabilidade de não se conformar ao sistema do presente século.


Vale destacar que, mesmo ao apresentar sua perspectiva sobre um tema tão sensível quanto o milênio, Ladd demonstra como os cristãos devem ser humildes e piedosos em debates teológicos dessa natureza, propondo uma postura mais equilibrada e menos conflituosa.


É interessante notar a citação do autor que ensina muito sobre humildade intelectual. Ao se referir à era futura, ele afirma (p. 76–77): “Nessa época, não teremos mais presbiterianos e batistas, calvinistas e arminianos, pré-milenaristas, amilenaristas e pós-milenaristas, mas todos entenderemos de forma perfeita o que é a verdade de Deus, pois seremos ensinados por ele”.


Outro fator fundamental na análise do livro é a abundância de citações bíblicas e a consistência do autor ao cruzar textos e autores diferentes para dar solidez à sua estrutura argumentativa.


Essa característica de Ladd, de recorrer constantemente às Escrituras durante toda a sua argumentação, reforça a segurança de suas afirmações. Diversos capítulos do livro são iniciados com citações ou narrativas bíblicas, levando o leitor a iniciar o raciocínio proposto já com o texto bíblico em mente.


Assim, aquele que se propuser a ler atentamente a obra concluirá a leitura com uma compreensão muito mais estruturada sobre o Reino de Deus e sobre como esse conceito percorre toda a narrativa bíblica, especialmente na proposta apostólica apresentada no Novo Testamento.

Para concluir a análise do livro, algumas características importantes merecem destaque. Trata-se de uma obra de leitura acessível, com sólida abordagem teológica, sem perder de vista o tom pastoral e devocional.


Além disso, chama atenção a forma suave e respeitosa como o autor aborda temas delicados e até polêmicos, buscando extrair aprendizados importantes sem abrir espaço para conflitos teológicos desnecessários.


A obra é um excelente exemplo de como um teólogo pode dialogar com toda a igreja cristã, trazendo reflexões profundas, forte base bíblica, abordagem didática e promovendo esperança e senso de responsabilidade.


Ao final da leitura, é difícil não ser tocado pelo desejo de manifestar a justiça do Reino de Deus em nossos atos diários, reconhecendo nossa impotência, mas confiando que somos movidos pela graça de Deus a anunciar e viver as boas novas do Reino.


Bibliografia e Referências

LADD, George Eldon. O evangelho do Reino: estudos bíblicos sobre o Reino de Deus. São Paulo: Hagnos.


Comentários


bottom of page